Pocilga levantada com muito sacrifício, pelas mãos de um trabalhador, que segue com esperança (Foto: Idson Joatan)

 Por Josivan Barbosa*

Neste ano temos a experiência de acompanhar de perto um pequeno agricultor que criava caprinos e ovinos e que pelas condições de segurança pública, acabou obrigado a vender todo o plantel. Assim, teve que reprogramar a utilização de uma pequena área de cerca de 35 hectares, localizada na comunidade rural de Rancho da Velha, em Governador Dix-Sept Rosado.

O que inicialmente poderia ser uma grande vantagem do ponto de vista de infraestrutura, a construção da BR-110 passou a ser mais um problema para os criadores daquele local. O acesso fácil aumentou o fluxo de pessoas motorizadas e o furto de animais passou a ser a regra ao invés da exceção.

Após inúmeras ocorrências de furto de animais, o pequeno produtor resolveu fazer a opção por instalar um pequeno projeto de criação de suínos. A primeira grande dificuldade foi o capital para investir na construção das instalações. Sem acesso ao financiamento, pois não possui o título da posse da propriedade, se viu obrigado a usar o cartão de crédito para comprar madeira, telhas, tijolos, e demais materiais para a referida construção.

Pagou juros acima de dois dígitos no comércio local. Após 12 meses de muito trabalho, sem contratar mão-de-obra extra, apenas com a mão-de-obra familiar conseguiu levantar as paredes e cobrir a pocilga.

Plantio de milho

Como em 2021 o preço do milho esteve muito alto, o produtor compreendeu que a única maneira viável seria cultivar o próprio milho que precisaria usar como fonte de energia para os suínos.

A primeira grande dificuldade foi adquirir a semente. Um quilo de semente de milho híbrido de qualidade superior vendido na região chega a ser 10 vezes o valor da semente comum. O produtor conseguiu tomar dinheiro emprestado para comprar a semente híbrida, como forma de otimizar o seu negócio e melhorar o rendimento da cultura.

De cara, foi obrigado a esperar que o período de chuvas se estabilizasse para colocar a semente no campo. Aí veio outro grande problema: o preço do óleo diesel quase que inviabiliza totalmente o preparo do solo para o plantio, o que provocou atraso em mais de duas semanas após a retomada das chuvas. Se tivesse colocado as sementes no campo no início de fevereiro, teria certamente perdido, pois o veranico de três semanas naquele mês não é viável para o milho híbrido.

Agora, o pequeno produtor vive outro drama, que é a compra de óleo diesel para a limpeza de ervas daninhas e a compra de agroquímicos para o controle das pragas e doenças.

Rendimento do milho

Mesmo diante de tantas dificuldades, o pequeno agricultor vive a expectativa de, pela primeira vez, conseguir uma boa produtividade com o milho híbrido. Mas, toda noite reza para que a chuva continue, pois apesar de ser bem mais produtivo, o milho híbrido é mais susceptível aos veranicos do que a semente comum. É torcer para que a chuva continue a cair no mês atual e, pelo menos, mais 30 dias de abril.

Trabalho sem renda

Durante todo esse período uma outra grande dificuldade tem sido sobreviver juntamente com a família sem uma renda da terra, pois os recursos oriundos da venda do plantel de caprinos e ovinos há tempo que exauriram. A única saída é deixar o sítio e conseguir serviço extra junto aos produtores vizinhos, como recuperação de cercas, enchimento de silos, limpeza de instalações, etc.

Nisso, o produtor deixar de cuidar da sua própria área com o olho do dono para conseguir o sustento da família. Como a frequência desse tipo de serviço não é boa, o produtor se viu obrigado a vender o único veículo que servia à família, uma moto CG 1995 no valor de R$ 1800,00, com IPVA atrasado há mais de 15 anos.

Qualificação em vez de indicação política

No setor público, os cargos comissionados de chefia costumam ser preenchidos por indicação política. Mas uma iniciativa vinda do setor privado pretende incentivar em todo o país a seleção baseada nas qualificações profissionais. Esse modelo já foi apresentado a sete Estados e adotado em Minas Gerais, Sergipe e outros Estados.

O Instituto Gesto, com o apoio da parceria Vamos, que reúne a Fundação Lemann, o Instituto Humanize e a República.org, desenvolveu esse processo seletivo de lideranças no setor público em parceria com os Estados.

Clarissa Malinverni, gestora de projetos da Fundação Lemann, diz que foram avaliados casos internacionais de contratação no setor público, como do Reino Unido e do Canadá, para se chegar a um formato para o Brasil.

“O Vamos ajuda o governo a montar o processo seletivo. Até o fim do ano passado, 644 pessoas foram contratadas para cargos comissionados por esse formato”, conta Lucas Cardoso Santos, coordenador de gente e cultura do Instituto Gesto. Ele acrescenta que o Ceará acaba de adotar esse processo seletivo para a escolha de secretários executivos.

“Vejo uma grande oportunidade de avançar em políticas de liderança em 2023, com a troca de governantes. Os governos deveriam estabelecer um plano de metas e resultados, atrelado a um sistema de gestão de lideranças mais transparente”, defende Clarissa.

Em Minas Gerais, o programa foi lançado em março de 2019, como Transforma Minas. Na seleção é feita análise do currículo, de diplomas, pesquisa para traçar o perfil dos candidatos e entrevistas de seleção. Os aprovados passam por treinamento para desenvolvimento de lideranças.

Luísa Barreto, secretária de Planejamento e Gestão de Minas Gerais (Foto: R7)

Luísa Barreto, secretária de Planejamento e Gestão de Minas Gerais, diz que o programa abrange as secretarias de Desenvolvimento Social, Educação, Meio-Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e Saúde, além dos órgãos autônomos. Desde o início do programa, foram feitos 223 processos seletivos e 215 nomeações. Neste ano, há seis processos em andamento.

“É um processo de seleção mais complexo, mas faz toda a diferença. Dá para perceber com clareza que esse processo traz gestores com uma qualificação maior. E traz impessoalidade, que é um dos princípios da gestão pública”, afirmou Barreto.

Thais Alexandrino, ouvidora de fazenda, licitações e patrimônio público de Minas Gerais, já era servidora do Estado desde 2002, e trabalhava como assessora de diretoria. Alexandrino é formada em direito, mestre em ciências jurídico-políticas e doutoranda em direito público. Em 2021 participou do processo de seleção para a Ouvidoria. “Acho uma inovação muito positiva. Exerço funções ligadas à minha área de formação”, disse Alexandrino.

Joyce Petrus, superintendente de avaliação educacional da Secretaria de Educação de Minas Gerais desde novembro de 2020, também foi selecionada pelo Transforma Minas. Mas ela atuava no setor privado, em uma consultoria. Petrus é formada em estatística, com especialização em gestão da informação e do conhecimento, mestrado e doutorado em educação. “O programa inova ao trazer pessoas com experiência e com a energia do setor privado para o setor público. Tive dificuldade para fazer com que todos entrassem no mesmo ritmo, para ter um resultado mais assertivo. Mas a mudança foi bem aceita”, diz Petrus.

Em 29 de dezembro de 2021, o governo de Minas Gerais publicou o decreto 48.330, que tornou o modelo de seleção parte da política de Estado. “O objetivo é perenizar essa prática”, afirma Barreto.

Sergipe também adotou em 2019 novas regras para a seleção de diretores de escolas e diretores regionais de ensino. Em janeiro deste ano, as regras foram estabelecidas em lei estadual. “O governador [Belivaldo Chagas, PSD] foi secretário de educação do Estado e sabe como dificultava na gestão da educação as práticas convencionais de escolha de diretores”, afirma o secretário de educação de Sergipe, Josué Modesto Subrinho.

A seleção inclui análise de currículo, apresentação de propostas para melhorar os indicadores educacionais da região e análise do candidato por uma banca. Só professores da rede estadual podem participar. Os professores aprovados na seleção recebem cursos de formação continuada em gestão pedagógica, gestão administrativa e financeira.

Já passaram por esse processo 320 diretores de todas as escolas estaduais e os dez diretores regionais de educação. “As pessoas entenderam que a velha prática de escolher diretores a partir de ligações políticas não tem volta”, afirma Subrinho. Sergipe fez dois processos seletivos.

Jucileide da Silva Lima, gestora da Escola Estadual Coronel Maynard Gomes, em Porto da Folha (SE), foi uma das professoras que participaram da seleção feita em 2019.

Ela já trabalhava no Estado desde 2015. “A apresentação do projeto dá um norte para o gestor. Traçamos metas anuais e acompanhamos o que foi feito e o que falta”, diz Lima.

*Fonte: Por Cibelle Bouças – Valor Econômico

*Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Ufersa



Post a Comment

Postagem Anterior Próxima Postagem