Quando ainda era um vilarejo de Martins(RN), a cidade de Umarizal – localizada na região do alto oeste potiguar, a 114 km de Mossoró – era chamada de Terra do Gavião. O apelido surgiu devido a grande quantidade de gaviões que se abrigavam nas árvores das redondezas. Mais de seis décadas depois, a ave de rapina continua a fazer parte da identidade do município. Por lá, é difícil encontrar quem não tenha um gavião em casa, já que a relação da cidade com a ave deu origem a uma moeda social: o Gavião.

Esse tipo de moeda teve origem na Europa, no século 19, em pequenas comunidades com o objetivo de estimular economias locais que se encontravam em queda. No Brasil, a primeira moeda social foi a Palma, criada em 1998, por uma associação de moradores do conjunto Palmeiras, em Fortaleza (CE). Atualmente, mais de 100 moedas alternativas circulam no país, e o gavião é uma delas.

A moeda umarizalense foi a terceira moeda social do Rio Grande do Norte. A primeira foi criada em São Miguel do Gostoso (o Gostoso) e a segunda em Carnaubais (a Carnaúba). Criado em 2019, o Gavião foi uma iniciativa da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Umarizal. Na época, com a queda gradativa das vendas e a paralisação momentânea dos caixas do maior banco da cidade, a CDL teve que criar novas estratégias para aquecer o comércio local. Foi a partir daí que eles decidiram apostar no Gavião.

“Nós identificamos que os consumidores migraram muito para o comércio eletrônico. Dessa mudança, nós ficamos em estudo aqui no CDL, trabalhamos uns meses pesquisando e levantando ideias, de como poderia atrair o olhar do consumidor para fazer ele voltar a comprar no comércio local. Partindo disso, nós chegamos na ideia do Gavião”, explica Oberlândio Costa, presidente da CDL de Umarizal.

As empresas parceiras da CDL que aderem ao projeto “UZL Fidelize”, compram seus Gaviões para distribuir como “brinde” para seus clientes que fazem compras à vista. Se o freguês compra R$ 50, ele ganha uma nota de 0,50 centavos de Gavião; se ele compra R$ 100, ele recebe uma nota de 1 Gavião, e assim sucessivamente. A moeda tem a mesma equivalência que o real, e suas cédulas são nos valores de 0,50, 1, 2, 5 e 10 gaviões.

Moeda caiu no gosto da população e vira item de colecionador

No início, mais de 30 empresas da cidade aderiram ao projeto e, atualmente, mais de 15 mil gaviões circulam no município. O uso exclusivo da moeda faz com que o dinheiro permaneça na cidade, aquecendo a economia local. Para os comerciantes, a iniciativa se mostrou vantajosa. “Se você vai fazer um sorteio, você gasta muito, tem muita gente que não quer tá preenchendo cupom, e no final esquece. Com o dinheiro não. Você está dando 1% de incentivo e está recebendo o dinheiro… Tanto a gente ganha, e principalmente o cliente”, afirma Vanilda Souza, comerciante.

Para a surpresa dos idealizadores, o Gavião foi bem aceito pela população, e até quem não fazia parte, acabou cedendo à proposta. Feirantes e vendedores ambulantes, que vivem do comércio informal, começaram a receber pagamentos e a passar troco com o gavião. Um exemplo disso é seu Chico Diassis, que trabalha há mais de 20 anos em frente a escolas, vendendo lanche. Quando questionado se ele recebe a moeda, a resposta é certa: “Aceito sim! Como lá no mercadinho aceita a moeda, eu aqui tenho que aceitar do mesmo jeito… Com essa iniciativa melhorou bastante pra gente, porque quando a pessoa compra no comércio e ganha o gavião, o pai dá ao menino, o menino traz aqui para o meu pequeno comércio, e eu recebo”.

A moeda caiu tanto no gosto da população, que muitas pessoas passaram a ter dificuldade em soltar as notas que tem em casa. O Gavião virou presente e até item de colecionador. Já teve gente que plastificou e outros enviaram para familiares que moram em outros estados.  “Esse é um dos maiores problemas que a gente tem, de não circular a moeda. Porque as pessoas guardam a coleção, as que não guardavam ainda estão tentando (completar a coleção)”, diz Oberlândio Costa.

Mas nas mãos de seu Chico, o gavião não fica preso. Diferente de quem tem apego pela nota, ele sabe que o dinheiro tem que girar. Todos os dias ao encerrar suas vendas, Chico passa no supermercado para abastecer seu estoque, e são os gaviões que garantem as vendas do dia seguinte. “É aquela velha mania de sempre, do pessoal pegar a moeda, achar bonita a nota e querer guardar como se fosse uma coisa de estimação. O dinheiro é para circular no comércio!”, alerta Chico Diassis.

Ana Paula Oliveira, coordenadora de projetos da CDL, explica que apesar de ficar feliz com o carinho que a população criou pela nota, o objetivo é que as pessoas gastem, e não guardem o dinheiro: “O sentido da moeda realmente é circular. Quanto mais moeda circula, mais dinheiro tá circulando na nossa cidade. Então não tenham medo, soltem o gavião. Deixem o gavião voar”.

Quase três anos depois de seu lançamento, o Gavião agora enfrenta outro predador. O projeto, que estava em crescimento, também sofreu os impactos causados pela pandemia de Covid-19. Com os decretos de fechamento de comércios, muitas empresas passaram por dificuldades financeiras, e isso prejudicou a atividade do projeto. “A economia como um todo foi afetada, com o projeto não poderia ser diferente. Percebemos que houve uma redução no número de empresas que davam a moeda como incentivo de compra à vista”, diz Ana Paula.

A coordenadora ainda conta que apesar das empresas terem reduzido o incentivo, a circulação da moeda chegou a aumentar durante esse período, resultado da adesão do comércio informal, que mesmo não distribuindo, recebe e devolve a nota. Com a retomada da economia, agora a meta da CDL é analisar os dados mais recentes e reestruturar o projeto, e assim, manter os gaviões em voo.

TCM Notícias



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