Por Jules Queiróz
Nessa época, há uns quinze, vinte anos atrás, dizia-se que Canindé fazia comentários impublicáveis. Discordo. Papel aceita tudo. Tudo é publicável, desde que se tenha a coragem ou não se tenha a noção do perigo. O fato é que Canindé soltava cobras e lagartos contra Rosalba. Quanto mais ele batia, mais ela subia. O afastamento de Canindé do jornalismo diário coincidiu com a ascensão política de Rosalba ao Senado. Mais tarde, num tom de campanha quase messiânico, Rosalba foi eleita a segunda governadora do Estado do Rio Grande do Norte.
Mas como disse Crispiniano Neto em seu texto “Canindé Queiroz – o Inimitável”: “Todas as estripulias que Canindé fez eram respaldadas em uma estratégia e uma tática, medidas, como ele próprio dizia, à régua e compasso”. Estamos aí vendo que, de fato, o tom messiânico com relação a Rosalba em seu mandato como governadora foi substituído por 80% de reprovação popular e completo abandono e isolamento políticos.
De fato, lembro que em um dos textos de Canindé ele fez uma previsão caprichada: o fim de Rosalba será trágico. Não lembro exatamente do texto e do contexto em que isso foi dito. Mas o que me vem à memória depois da segunda cassação de Rosalba é essa frase que, escrita há uns dez ou vinte anos, se mostra mais que atual.
Deixo uma coisa clara: do ponto de vista jurídico, não concordo com a cassação da governadora da forma como feita pelo TRE. Os fatos imputados, com certeza, ensejariam uma cassação. Mas a conjuntura jurídica – aplicação do Artigo 15 da Lei Complementar 64/90 com a redação da Lei da Ficha Limpa – não autoriza essa cassação imediata, em especial se tratando de eleição municipal e não estadual.
Mas o certo é que, ainda que alçada de volta ao cargo, Rosalba vai enfrentar a pecha de governar sob liminar. Vai enfrentar os diversos escândalos de má gestão do interesse público. Vai enfrentar o isolamento político intenso, sendo recusada pelo próprio partido como candidata à reeleição. Se isso não é um fim político trágico, não sei dizer o que é.
Canindé previu um fim trágico em sua cruzada anti-Rosalba. Suas palavras retumbantes, embora polêmicas, foram ao vento na medida em que o interesse de muitos em ficar debaixo das asas da futura senadora e governadora falaram mais alto. Canindé foi taxado até mesmo de louco. Mas, imprevisível como era, acabou acertando vinte anos à frente.
* Transcrito do Jornal Gazeta do Oeste

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