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O acordo anunciado entre Estados Unidos e Irã está sendo interpretado em Israel como uma derrota do país e, sobretudo, como uma derrota pessoal do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, segundo o comentarista político israelense Gideon Levy.

A análise foi feita por Levy à Al Jazeera. Para o jornalista, o Irã sempre foi o “projeto de vida” de Netanyahu, que construiu boa parte de sua trajetória política em torno da ameaça iraniana e da promessa de conter Teerã pela força, pela pressão diplomática e pelo alinhamento com Washington.

Israel foi excluído das negociações

Segundo Gideon Levy, o aspecto mais contundente do acordo é o fato de Israel ter sido totalmente excluído das negociações entre Estados Unidos e Irã. A avaliação reforça a percepção de que Netanyahu perdeu influência sobre o principal tema de sua agenda internacional.

Levy afirmou que o anúncio do acordo é visto em Israel como “a derrota de Israel e a derrota pessoal de Netanyahu”. Segundo ele, diante da exclusão do processo diplomático, o governo israelense passou a ter como único recurso a tentativa de sabotagem.

Essa sabotagem, de acordo com o analista, inclui os ataques lançados por Israel contra os subúrbios do sul de Beirute no domingo. Levy classificou essas ações como “ataques ridículos e infantis”.

Para ele, a sequência dos acontecimentos deixou claro que Israel saiu perdendo. “Está muito claro que Israel só perdeu neste jogo”, afirmou.

O Irã como projeto de vida de Netanyahu

A avaliação de Levy atinge o centro da narrativa política construída por Netanyahu ao longo de décadas. Para o primeiro-ministro israelense, o Irã sempre foi apresentado como ameaça existencial e como eixo de sua política externa e de segurança.

Ao longo de sua carreira, Netanyahu buscou convencer aliados ocidentais de que Teerã deveria ser contido por meio de sanções, isolamento e ameaça militar permanente. O acordo entre Washington e Teerã, porém, desloca Israel do centro das decisões e recoloca a diplomacia como caminho para a contenção da crise.

Nesse contexto, a derrota é pessoal porque desmonta o argumento que sustentou a liderança de Netanyahu em momentos decisivos: a ideia de que apenas ele seria capaz de proteger Israel contra o Irã. Ao ser deixado fora da mesa de negociação, o premiê aparece enfraquecido, isolado e incapaz de determinar os rumos da política regional.

Netanyahu ainda pode tentar sabotar o cessar-fogo

Gideon Levy alertou que o verdadeiro teste do compromisso de Donald Trump em conter Israel ainda está por vir. Segundo o analista, Netanyahu continuará disposto a sabotar um cessar-fogo que não atenda às prioridades centrais de Israel.

“É muito, muito frágil”, afirmou Levy sobre o acordo. Para ele, um dos maiores desafios será a situação no Líbano, onde a presença militar israelense e a resistência à ocupação podem comprometer qualquer tentativa de estabilização regional.

O comentarista afirmou que os iranianos conseguiram criar uma ligação direta entre o Líbano e o acordo. Essa vinculação torna o processo ainda mais complexo, porque a paz não dependerá apenas da relação entre Estados Unidos e Irã, mas também do comportamento de Israel no território libanês.

Líbano é o ponto mais delicado do acordo

Levy destacou que não vê como o acordo poderá funcionar plenamente enquanto Israel permanecer no Líbano. Para ele, a presença militar israelense impede a construção de um cessar-fogo total e mantém aberta a possibilidade de resistência armada.

“Acho que um dos maiores desafios do acordo com o Irã é a situação no Líbano”, afirmou.

Segundo o analista, “os iranianos conseguiram criar uma ligação total entre o Líbano e o acordo”. Ele acrescentou que não enxerga como a iniciativa poderá avançar porque “Israel ainda está no Líbano, não tem intenção de se retirar do Líbano e, enquanto as tropas estiverem lá, não haverá ‘cessar-fogo total’, porque sempre haverá resistência à ocupação israelense do Líbano.”

A análise coloca o Líbano no centro do tabuleiro regional. Se Israel insistir em manter tropas no país, a possibilidade de uma paz duradoura ficará comprometida, mesmo com o entendimento entre Washington e Teerã.

A paz expõe o fracasso da estratégia israelense

O acordo entre Estados Unidos e Irã não encerra todas as tensões do Oriente Médio, mas já produziu um efeito político imediato: expôs a fragilidade da estratégia de Netanyahu. O primeiro-ministro apostou durante anos na pressão máxima contra Teerã e na construção de uma frente internacional de contenção ao Irã.

Com o entendimento diplomático, porém, os Estados Unidos reconhecem que a negociação com Teerã é necessária. Isso enfraquece a linha defendida por Netanyahu e amplia o contraste entre a aposta israelense na escalada e a opção norte-americana por um acordo.

A leitura de Gideon Levy é que Israel perdeu não apenas influência, mas também capacidade de determinar os desdobramentos da crise. Ao ficar fora das negociações, o governo Netanyahu viu seu principal adversário regional transformar resistência militar e diplomacia em poder de barganha.

Derrota política pode ampliar crise interna em Israel

A análise também aponta para possíveis consequências internas em Israel. Se o acordo for percebido pela sociedade israelense como um fracasso estratégico, Netanyahu poderá enfrentar novas pressões políticas.

O primeiro-ministro já vinha sendo criticado por sua condução da guerra e por sua incapacidade de oferecer uma saída política estável para os conflitos regionais. Agora, a avaliação de que o Irã saiu fortalecido e Israel foi excluído das negociações pode aprofundar o desgaste de seu governo.

Para Levy, a derrota é ainda mais contundente porque atinge o eixo central da imagem pública de Netanyahu: a promessa de força, dissuasão e controle sobre a ameaça iraniana.

Trump será testado diante de Israel

Outro ponto central da análise é o papel de Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos celebrou o acordo com o Irã, mas ainda terá de demonstrar se está disposto a conter Netanyahu caso o governo israelense tente sabotar o cessar-fogo ou ampliar ataques no Líbano.

Levy afirmou que esse teste ainda virá. A fragilidade do acordo dependerá, em grande medida, da capacidade de Washington de impedir ações unilaterais de Israel que possam comprometer a implementação da paz.

A questão é decisiva porque Netanyahu, segundo a análise, continua interessado em impedir qualquer cessar-fogo que não cumpra as prioridades estratégicas de Israel. Isso mantém aberta a possibilidade de novas provocações militares.

O fim de uma aposta histórica

A avaliação de Gideon Levy sintetiza a dimensão política do momento: para Netanyahu, o acordo entre Estados Unidos e Irã representa o fracasso de uma aposta histórica. O primeiro-ministro construiu sua carreira apresentando o Irã como ameaça central e defendendo que apenas a pressão militar e diplomática poderia conter Teerã.

Agora, com Israel fora das negociações e com Washington aceitando um acordo direto com os iranianos, essa estratégia aparece esvaziada. A paz, ainda frágil, nasce como derrota pessoal de Netanyahu e como sinal de que a diplomacia voltou a redesenhar o Oriente Médio sem que Israel esteja no comando do processo.

Brasil 247

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