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Há pouco mais de um século, um bebê nascido com gastrosquise dificilmente teria qualquer chance de sobreviver. Há mil anos, sequer existia compreensão sobre a condição. Hoje, graças aos avanços da medicina, da cirurgia neonatal e da estrutura hospitalar, vidas que antes seriam interrompidas nas primeiras horas agora podem seguir adiante. Desde os anos 1960, as técnicas de correção da gastrosquise evoluíram de procedimentos simples para abordagens mais seguras e graduais, capazes de devolver esperança a famílias inteiras.

Essa transformação da medicina deixou de ser apenas uma realidade dos grandes centros e aconteceu também em Mossoró. No Hospital da Mulher, a realização do procedimento tornou possível salvar a vida de um bebê que, em outras épocas — e até poucos anos atrás, longe de centros especializados —, provavelmente não resistiria. Mais do que um avanço técnico realizado em uma cidade do interior, o caso representa a capacidade da medicina moderna de desafiar limites que durante séculos pareceram intransponíveis.

A gastrosquise é uma condição rara em que o intestino do bebê se desenvolve fora da cavidade abdominal. Em casos assim, o tempo entre o parto e a cirurgia costuma definir as chances de sobrevivência. A operação foi realizada imediatamente por uma equipe multiprofissional mobilizada dentro da unidade, onde o bebê permanece internado na UTI neonatal, sob acompanhamento médico.

A gastrosquise exige intervenção cirúrgica imediata logo após o nascimento para reposicionar os órgãos e reduzir riscos de infecção, necrose intestinal e falência orgânica. Segundo a cirurgiã pediátrica Thailane Rodovalho, o quadro é considerado grave e demanda resposta rápida da equipe médica. “É uma patologia grave. A barriga nasce aberta. E aí, como as alças, o intestino da criança, ele está para fora da barriguinha, o tempo para realizar a cirurgia é crucial para a sobrevida dessa criança”, explicou.

A médica afirmou que o bebê foi abordado ainda na primeira hora de vida e que o atraso no procedimento poderia elevar rapidamente os riscos de complicações. “Se não for imediata, conforme o tempo vai passando e as alças estão expostas ao ar, estão fora da cavidade da criança, a chance de uma mortalidade, a chance de uma morbidade, a chance de infectar, a chance de um desfecho negativo para essa criança, ela vai subindo exponencialmente”, disse.

Até poucos anos atrás, casos semelhantes registrados em Mossoró precisavam ser transferidos para hospitais da capital. O deslocamento de recém-nascidos em estado crítico até Natal muitas vezes comprometia o atendimento, especialmente diante da urgência exigida pela condição.

A cirurgia realizada no Hospital da Mulher passou a representar uma mudança na assistência neonatal ofertada no interior do estado. De acordo com a equipe médica, mais de 20 pessoas participaram da força-tarefa, entre profissionais da saúde e estudantes que acompanham a rotina hospitalar. “Você chegando e olhando, você vê que está acontecendo uma coisa importante naquele momento ali”, relatou Thailane Rodovalho. Segundo ela, a presença dos estudantes também permitiu acompanhar, na prática, o atendimento de alta complexidade desde o nascimento até o pós-operatório.

A diretora-geral da unidade, Elenimar Costa, afirmou que o hospital ampliou a realização de procedimentos considerados complexos tanto na área neonatal quanto em cirurgias ginecológicas e pediátricas. “Várias outras cirurgias de grande complexidade para a criança recém-nascida estão sendo feitas aqui”, afirmou. Ela também citou procedimentos ginecológicos de urgência e retirada de tumores de grande porte realizados recentemente na unidade.

Segundo a direção do hospital, a ampliação dos serviços especializados tem reduzido a necessidade de transferência de pacientes do Oeste potiguar para hospitais da capital, concentrando atendimentos de média e alta complexidade em Mossoró.

TCM Notícia

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