Matheus Pichonelli / Yahoo Notícias
Jair Bolsonaro (PL) tentou transformar sua visita à Brasília de Nossa Senhora Aparecida no feriado de 12 de outubro, dia da Padroeira, em um ato de campanha.
A ideia era conseguir imagens para mostrar na TV e em suas redes que não tem só o apoio de Silas Malafaia e companhia, mas também da maioria católica.
A cúpula da Igreja não gostou nada disso.
Embora tenha conseguido levar ao local centenas de apoiadores vestidos de verde e amarelo, Bolsonaro ouviu um belo puxão de orelha dos responsáveis pela celebração.
Antes mesmo de o presidente chegar ao local, o arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brites, em recado mais do que direto, disse em alto e bom som que era preciso vencer o "dragão" do ódio, da mentira, do desemprego e da fome. No ano passado, ele havia criticado, também sem citar nomes, a política de armamento do atual governo.
A carapuça serviu.
Em uma entrevista à Folha de S.Paulo, o arcebispo metropolitano de São Paulo, dom Odilo Scherer, havia dito que se Bolsonaro quisesse visitar Aparecida como romeiro, poderia. Deixava entender que não era o caso. Ele criticou ainda a "instrumentalização da fé em função ideológica e política” e disse que onde há fanatismo, não há lucidez.
As palavras foram premonitórias, mas caíram em terreno pedregoso, cheio de espinhos.
Durante a passagem por Aparecida, no dia mais sagrado para os devotos da padroeira do Brasil, apoiadores do presidente vaiaram um padre, encurralaram uma pessoa vestida de vermelho e hostilizaram profissionais da imprensa –como já virou rotina nas coberturas dos passos do candidato. Dessa vez o alvo foram funcionários da TV ligada à Igreja.
Na cena em que apoiadores de Bolsonaro gritam palavras de ordem contra um cinegrafista, é possível observar ao menos uma pessoa com uma caneca de cerveja na mão. Isso não seria um problema em outro local e contexto, mas aquela não era uma micareta.
Os devotos pareciam não saber disso. Estavam lá como devotos de Bolsonaro e por ele fariam qualquer coisa, inclusive hostilizar o padre Eduardo Ribeiro durante a missa das 14h.
Isso porque o sacerdote pediu silêncio em meio ao alvoroço com a presença do presidente. Os devotos bolsonaristas tentavam gritar palavras de ordem e puxar o coro de “mito”. O padre os lembrou que eles deveriam estar ali para rezar.
Em outra celebração, o padre Camilo Júnior fez questão de recordar que o dia era dedicado à santa, e não às eleições. “Parabéns a você que está aqui dentro e está rezando, porque hoje não é dia de pedir voto, hoje é dia de pedir bênção”. “É a ela (Nossa Senhora) nossas palmas, é a ela a nossa devoção”, disse.
A revolta de quem não aceita a tal instrumentalização política da fé, após as cenas, mostra que Bolsonaro pode ter dado um tiro no pé.
Não faltou quem comparasse o desrespeito dos fiéis bolsonaristas com o ato de um pastor, hoje apoiador do presidente, que chutou uma imagem da santa na TV no início dos anos 1990.
Séculos depois da cisão que levou as correntes protestantes a defenderem a separação entre Estado e Igreja, coube aos líderes católicos lembrar que lugar do templo é de oração.
Por muito menos, vereadores de Porto Alegre (RS) tentaram cassar, no início deste ano, o mandato de um colega que foi até uma igreja da cidade protestar contra o racismo.
O que os bolsonaristas fizeram no feriado de Aparecida foi muito pior.
Crentes de que seu candidato é o único cristão de verdade, eles mais do que ninguém deveriam saber que ninguém pode servir a dois senhores. O ensinamento está em Mateus, capítulo 6, versículo 24.


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