Por Josivan Barbosa* / Blog Carlos Santos

No último sábado (19) visitamos o Distrito Irrigado Baixo-Açu (DIBA) após a requalificação feita pelo Governo do Estado com recursos do empréstimo junto ao Banco Mundial (Programa RN Cidadão). Naquele projeto fomos recebidos pelo produtor Nuílson Pinto de Medeiros, atual presidente do Diba e proprietário da agroindústria Fazenda São Francisco.

A gestão do Distrito Irrigado Baixo-Açu é feita por um comitê formado por 11 conselheiros que elegem entre si o seu presidente.

O Diba é um projeto construído com recursos da União e do Governo do Estado. A contrapartida do Governo Estadual foi viabilizada com recursos da venda da COSERN. O projeto custou 75 milhões de reais. Ao todo (Etapa I e II) o projeto representa 6 mil ha irrigados. São 50 km de canal de excelente qualidade.

O atual Governo do RN acabou de investir cerca de 15 milhões de reais na requalificação do Distrito Irrigado. As principais obras foram: recuperação do canal da segunda etapa do projeto (3000 h – 25 km de canal), reorganização das associações que funcionam dentro projeto, incluindo recursos para aquisição de máquinas e equipamentos em geral, recuperação da rede elétrica da segunda etapa e instalação de uma casa de bombas exclusiva para a segunda etapa. Houve uma contrapartida de 10% por parte dos produtores.

O projeto também recebeu uma pavimentação asfáltica do acesso principal ao setor administrativo feito em parceria com a Prefeitura Municipal do Alto do Rodrigues.

DIBA – segunda Etapa

Após quase 30 anos de construção do Distrito Irrigado Baixo-Açu, o atual Governo está tomando as últimas providências para colocar em funcionamento a segunda etapa do projeto que comtempla praticamente a mesma área irrigada da primeira etapa. Isso chamou a atenção dos empresários da agricultura irrigada do Polo de Agricultura Irrigada RN – CE, fazendo com que alguns destes concorressem no processo licitatório para lotes empresariais.

Uma grande vantagem da área da segunda etapa é que tem maior sustentabilidade hídrica, pois na área podem ser perfurados poços do manancial Arenito-Açu em baixa profundidade, o que reduz os custos de energia. Dessa forma, as empresas que se instalarem na segunda etapa terão duas alternativas de água: a água do canal do Diba e a água de poços perfurados.

Fazenda São Francisco

A Fazenda São Francisco é uma das diversas áreas produtivas pertencentes aos médios produtores. Atualmente, possui 130 ha de coqueiro anão de excelente qualidade. O coco é comercializado para as empresas que trabalham com água de coco in natura engarrafada.

A Fazenda são Francisco está inovando na região com o plantio de limão Tahiti visando o mercado internacional. A empresa tem uma área de 15 ha instalada em diferentes fases de desenvolvimento. O projeto como um todo já tem uma área próxima de 300 ha  de limão Tahiti, o que facilitará a logística de exportação já que o fruto fresco pode ser exportado pelo Porto Natal, seguindo a mesma tecnologia de pós-colheita já utilizada por outros produtos como manga, melão, melancia e mamão.

Limão Tahiti e a diversificação 

No interior de São Paulo, o limão Tahiti tem apresentado boa rentabilidade, sendo em alguns casos superior ao da laranja, tradicional fruto produzido na região. O fruto tem boa aceitação nos grandes centros consumidores e avança a sua aceitação no mercado externo.

O fruto, que na verdade é um ‘falso limão’, é resultado do cruzamento do limão siciliano com a lima-da-pérsia e foi introduzido na Califórnia a partir de sementes oriundas da região de Tahiti na Polinésia Francesa – motivo pelo qual recebeu seu nome de batismo. Com o consumo inicialmente concentrado na América do Sul e no Caribe, onde as condições de cultivo também são apropriadas o fruto passou a conquistar novas fronteiras na última década.

No Semiárido, mais especificamente, no Estado do Piauí, na década de 90, o limão Tahiti apresentou bom rendimento e qualidade adequada para ser exportado para a Europa.

Em 2021 o limão Tahiti foi um dos principais frutos frescos exportados pelo país para a União Européia. O país exportou em 2021 149.900 toneladas, correspondendo a um incremento de 21% em relação ao ano anterior e representou 123,8 milhões de dólares, ou mais de 10% do total de frutos frescos exportados pelo país.

Em 2022 a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas conseguiu, em sintonia com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a abertura do mercado chileno para o limão Tahiti. As primeiras exportações estão sendo feitas pelo estado do Tocantins.

São Paulo é o principal produtor de limão Tahiti do país, respondendo por 70%. Os preços do fruto têm aumentado em linha com sua aceitação no mercado externo. Em 2014, a caixa (22 quilos) foi negociada, em média, por R$ 32,33, cujo valor foi 41,8% acima do preço praticado em 2013. O fruto consegue ser comercializado a valores diferenciados, chegando a atingir 1,5 euros/kg.

Alguns produtores de limão Tahiti da Grande Região Jaguaribe-Apodi têm afirmado que umas das características que diferencia o limão Tahiti produzido nessa região do fruto em São Paulo é o volume de suco. Os frutos produzidos no Semiárido apresentam alto teor de suco.

Meri Pobo

Tivemos a felicidade de retornar às viagens de campo que fazemos nos finais de semana com os nossos discentes do curso de Agronomia. Após 2 anos sem esse tipo de atividade, os nossos discentes estavam sendo muito prejudicados na parte prática do curso. É difícil compreender sobre o negócio rural longe do campo.

Iniciamos com uma visita dos discentes das disciplinas de Desenvolvimento Econômico/Política Agrícola e Tecnologia Pós-colheita de Frutos e Hortaliças à empresa Meri Pobo Agropecuária que pertence ao empresário austríaco Johann Feldgrill.

A Meri Pobo tem duas fazendas instaladas no Polo de Agricultura Irrigada RN – CE, sendo uma em Jaguaruana e outra em Russas (Distrito Irrigado Tabuleiro de Russas – DISTAR). A empresa possui fazendas também na África (Moçambique).

Meri Pobo Jaguaruana

A Meri Pobo Agropecuária instalou-se em Jaguaruana na Fazenda da antiga JAISA (Jaguaruana Agroindustrial Sociedade Anônima) que fazia parte do complexo de empresas do Grupo MAISA. Nessa fazenda a antiga JAISA cultiva acerola e havia uma área experimental com Sapota (variedade de sapoti). Antes, a fazenda JAISA tinha sido adquirida por outros empresários, mas todos sem sucesso na condução dos negócios. Após a aquisição da JAISA, a Meri Pobo Agropecuária adquiriu outras áreas vizinhas e hoje já se aproxima de 4000 ha de área útil em Jaguaruana. Mais recentemente a empresa foi beneficiada com a construção de uma rodovia estadual que liga o município de Jaguaruana à BR 304 na altura da divisa CE – RN (comunidade rural de Cacimba Funda pertencente ao município de Aracati).

Recursos hídricos

Um grande limitador do negócio rural da Meri Pobo Agropecuária é a disponibilidade de água. Apesar da empresa possuir três alternativas de água (Rio Jaguaribe – Barragem do Castanhão, poços, lagos superficiais),  tem investido muito para garantir a sustentabilidade hídrica. O maior investimento ocorreu com a construção de um canal de 7 km saindo do Rio Jaguaribe até a empresa. Esse canal foi construído para substituir uma adutora que era usada na época da Jaisa.

Além disso, a empresa fez investimentos com a construção de reservatórios temporários e requalificação de lagoas que facilitam o armazenamento de águas de chuvas.

Outro grande investimento com recursos hídricos deu-se com a perfuração, até o momento, de 25 poços de baixa profundidade (até 200 m) que favorecem o rodízio de alternativas de água dentro da empresa.

Tecnologia de produção

A Meri Pobo Agropecuária produz atualmente mais de 450 ha de acerola orgânica. Certamente, o maior plantio de acerola orgânica do planeta, mas pretende continuar ampliando a área, e com certeza, chegará aos 1000 ha.

A acerola orgânica é produzida dentro de rígidos critérios de qualidade e a empresa tem desenvolvido uma tecnologia própria de produção de mudas adaptadas à colheita mecanizada. As mudas só são transferidas para o campo após passarem por diversas fases de desenvolvimento na casa de vegetação, o que corresponde ao todo a cerca de 18 meses.

Recentemente adquiriu uma máquina de colheita mecânica do café no valor de quase um milhão de reais e está adequando para a colheita da acerola.

Outro aspecto importante é que a empresa desenvolveu uma estrutura eficiente e simples de produção de composto orgânico com produtos regionais, sendo a palha de carnaúba o principal.

Mercado e emprego

A Meri Pobo Agropecuária exporta 50% da acerola que produz. Os outros 50% são comercializados nas redes de supermercados do Ceará, São Paulo e Rio de Janeiro. A empresa tem parcerias com outras indústrias regionais que processam a polpa da acerola e liofilizam o produto para exportar para a Ásia como fonte de vitamina C.

Atualmente, a Meri Pobo está construindo uma agroindústria para o beneficiamento da polpa visando evitar o fornecimento para intermediários do processo da cadeia de logística da acerola.

A empresa gera quase 400 empregos diretos e os colaboradores são contratados preferencialmente do município de Jaguaruana.

Mamão

O mamão formosa orgânico é outra aposta desse grupo. O produto tem uma qualidade diferenciada em termos de textura e aparência interna e externa. A empresa tem uma área de cerca de 40 ha e após o sucesso no mercado regional e do Sudeste, agora está colocando o mamão, via aérea, na Europa. Com certeza, avançará para exportar o mamão por via marítima, cujo frete é bem inferior.

Na Meri Pobo Agropecuária de Russas, há o cultivo de goiaba orgânica e coco também.

*Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Ufersa


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