Quase um ano após a morte do potiguar Karlo Schneider Nogueira, 40, por Covid-19, seu amor se fez presente no aniversário de 15 anos da filha Barbara, no último dia 4 de março, em cartas escritas antes do nascimento dela e guardadas em discos dos Beatles.

Fã da banda britânica e da brincadeira de caça aos tesouro, Karlo deixou um verdadeiro desafio para sua família, que começou uma busca por essas cartas em 2021. A história com contornos de roteiro de filme viralizou na internet.

É que Schneider ficou desempregado durante a pandemia e, para ajudar no sustento da família, se desfez de grande parte da coleção de discos dos Beatles e seus integrantes como John Lennon.

Porém, dentro das embalagens dos vinis vendidos pela internet, também foram enviadas as cartas que ele teve a ideia de escrever com amigos antes do nascimento de Bárbara - sua filha mais velha - e que só seriam entregues a ela quando completasse 15 anos.

Karlo guardou as cartas na coleção justamente por achar que nunca precisaria se desfazer dos discos.

Ele já tinha voltado a trabalhar como gerente de hotel quando pegou Covid-19 em 2021. Foi intubado no dia 2 de março - dia do aniversário da esposa e dois dias antes do aniversário de 14 anos da filha - e faleceu no dia 11 do mesmo mês, em Mossoró, no Oeste potiguar.

Após a caçada coletiva iniciada pela família, pelo menos três cartas foram recuperadas no fim do ano passado. Entre elas, uma do próprio Schneider, que não foi terminada.

Segundo a mãe de Bárbara, Alcione Araújo, um dos compradores dos discos encontrou as cartas, ficou tocado com a história e entregou de volta para a família o disco "Imagine" de John Lennon com os escritos dentro. O homem, que pediu a ela para não ser identificado, havia perdido o filho também para a Covid.

"Ele só disse que estava muito feliz de poder presentear uma filha que perdeu o pai, sendo ele um pai que perdeu um filho", conta Alcione.

A entrega do disco junto com as cartas aconteceu em dezembro, em Natal, mas Alcione preferiu guardar segredo, junto com a filha. Bárbara decidiu só abrir as cartas no dia do seu aniversário, como havia sido proposto pelo pai.

"A carta é muito ele. É como se ele tivesse viajado e voltado para falar com ela. São perguntas sobre como ela estava. A gente ficou muito feliz de encontrar essa carta e Bárbara poder receber esse 'abraço' dele. Depois que ela leu, eu senti o rosto dela mais leve. Apesar da dor, aquilo fez bem. Foi um momento muito emocionante" — Alcione Araújo, mãe de Bárbara

As outras duas cartas são de um amigo de Schneider, o Francisco Segundo. Segundo Alcione, a família ainda não sabe quantas outras cartas estão guardadas dentro de discos vendidos por Schneider, ou se há outras cartas escritas por ele, entre as desaparecidas.

'Minha bonequinha'

A carta de Schneider não foi concluída. Na última frase, ele pergunta à filha se eles ainda moram em Natal. A tinta da caneta começou a desaparecer no início e foi acabando até o nome da cidade ficar praticamente apagado. O texto sequer leva sua assinatura.

Porém, para Alcione, não restam dúvidas de que a carta é do marido dela. Primeiro por causa da letra e, segundo, pela expressão usada para a menina: "Minha bonequinha". "É como ele chamava ela", lembra.

"Isso mexeu comigo, porque nos últimos dias, ele foi perdendo o oxigênio, e a carta é isso, a tinta vai se apagando", conta.

"Parece um filme, quando a pessoa não terminou de escrever a história. Tem toda uma simbologia", comenta a amiga da família, Ulla Saraiva, que foi quem postou a história que viralizou na internet.

Leia mais sobre o caso: 

História da Carta Perdida de Karlo Schneider repercute nacionalmente.

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G1/RN



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