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OCULUM 600 120

Por Lígia Sousa

Esses dias fui surpreendida pelo comentário de que faz tempo que não escrevo, e o consequente pedido para fazer um texto sobre a Páscoa, o sacrifício e a ressurreição de Cristo. Decidi aceitar o desafio, embora sabendo que, naturalmente, minhas inquietações não conseguiriam ficar fora dessa discussão. Recorri ao dicionário, a palavra ‘sacrifício’ vem do Latim: Sacrificium; literalmente: “ofício sagrado”, com explanações do tipo: ato ou efeito de sacrificar, abandono voluntário de algo precioso; renúncia, aquilo que é sacrificado, privação, sofrimento, custo, esforço e outros sinônimos desse tipo.


Que os meus amigos e familiares católicos perdoem a minha ignorância, mas creio que vou demorar a entender muitas de suas tradições. Quem nunca se deparou com o contexto de preparação da semana santa, onde pede-se para “dona Maria” fazer aquela travessa de bacalhau, regada aos vinhos recém tirados de suas adegas climatizadas, com ovos de páscoa de sobremesa?! Até aí tudo bem, mas daí esse ritual ser simbolizado como ‘sacrifício’ é o que me espanta. Ora, me desculpem, mas nem como psicóloga consigo ser empática com o “sofrimento” de passar alguns dias sem tomar coca-cola.

Longe de querer desrespeitar os praticantes, trata-se apenas de um desabafo e de um convite à reflexão. Também não se trata de eu não acreditar em Deus, apesar dos olhares tortos que recebo sempre que toco nesses assuntos.

Todos os dias quando entro no consultório para atender, peço a Deus que me dê sabedoria e que faça das minhas, as Suas palavras, para serem usadas como instrumentos do bem, que libertem e aliviem os pesos existenciais. Talvez os meus clientes ateus nem saibam que é assim que eu começo a atendê-los, e finalizo agradecendo.

Que não resumamos esse árduo e doloroso processo de fortalecimento da fé pela padronização de comportamentos que inspiram intolerância e julgamento se você faz algo fora do padrão. Que não confundamos espiritualidade com religião, e fé com a prática de rituais humanos. Que sejamos livres para, ao nosso modo, superar os sacrifícios diários na construção de uma sociedade mais respeitosa, justa e leve. E que a celebração da ressurreição de Cristo venha para renovar a busca pela paz e a união, que são ameaçadas a cada situação de dificuldade, a cada preocupação e a cada notícia de violência, mas que precisam se manter firmes. Que renasça, em nós, a inquietação de se perguntar todos os dias: que sacrifícios eu posso fazer para, DE FATO, deixar esse mundo um pouquinho melhor?

Finalizo essa reflexão parafraseando o filósofo Baruch Spinoza (sobre Deus):

“Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para quê precisas de mais milagres?

Para quê tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro… aí é que estou, batendo em ti.”


Lígia Sousa é Psicóloga e mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atua como psicóloga clínica no Núcleo de Desenvolvimento Humano, em Mossoró.



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