“Não parece ter sido coincidência as principais lideranças dos agrupamentos Rosado da cidade não terem sido eleitas”
POR MILTON MARQUES DE MEDEIROS
Em 2014, os eleitores mossoroenses passaram uma mensagem através das
urnas dizendo que estavam um pouco “cansadinhos” de votar em pessoas que
governavam a cidade com o mesmo estilo de administrar há mais de 70
anos em Mossoró. Não parece ter sido coincidência as principais
lideranças dos agrupamentos Rosado da cidade não terem sido eleitas.
Sabe-se que houve toda uma conjuntura circunstancial em 2012 com
proporções para mudanças que culminou com a eleição de Cláudia Regina,
mas se repetir dois anos depois com Francisco José Lima Silveira Júnior é
um fato que não parece tão episódico assim. O povo estava decidido.
REGISTROS
Com a família da ex-deputada Sandra Rosado, por exemplo, detinha
assento na Câmara de Deputados há mais de 60 anos, com reeleições
sucessivas do seu pai, grande político Vingt Rosado, seu esposo Laíre
Rosado e por último, ela própria. O fato dos ex-deputados Larissa Rosado
e Leonardo Nogueira, bem como da própria ex-governadora Rosalba
Ciarlini terem ficado sem mandatos, tudo isso é simplista demais se
pensar que aconteceu por mera coincidência ou por fortuito acaso. Pode
não se saber explicar a causa, mas como dizia Freud, ela existe. E uma
delas pode ter sido a sede de mudanças.
REAÇÃO
Claro que toda ação corresponde a uma reação e qualquer que fosse o
novo prefeito iria enfrentar uma oposição cruel. E é o que tem
acontecido. Não se pode atribuir o desgaste dos novos líderes da cidade
apenas a carga pesada dos seus opositores, é vero que a nova gestão tem
cometido “enganos políticos” graves. Aí facilitou a reversão.
ESPELHO
Olhando a história percebe-se que todas as “dinastias” um dia
desaparecem. Isso não quer dizer que tenha chegado a vez dos
tradicionais Rosado se aposentarem na política. Por sinal, acho que não,
como um dia aqui mesmo aconteceu com os Fernandes (Rodolfo Fernandes,
anos 30, 40) com os Duarte (Francisco Duarte Filho em 70) com os Mota
(Mota Neto) e tantos outros. Por outro lado reconheçam-se que há muitos
Rosado muito bons, principalmente os novos. Um povo só adquire sua real
independência política quando a sua população de eleitores supera
400.000 votantes. Quanto menor a cidade, mais seu povo fica condicionado
às tradições e modelos de gestões familiares com seus vícios e
acomodações.
QUALQUER UM?
Fazendo uma leitura da parte política de Mossoró na atualidade, a
ideia que se tem é de que qualquer novo gestor que tivesse assumido a
Prefeitura e tomado os caminhos que a atual administração vem trilhando,
qualquer um estaria no mesmo estágio de desgaste popular em que se
encontra o prefeito Silveira Júnior. Três fatores têm contribuído
fundamentalmente para esse resultado: rumo administrativo, forte
oposição e realidade político-econômico social da atualidade.
QUANTO À ADMINISTRAÇÃO
A atual equipe gestora vem cometendo, digamos assim, alguns enganos
políticos graves. Por exemplo, para um período tão curto de gestão,
apenas dois anos, não seria recomendado querer resolver problemas
enraizados, antigos, que demandam muita discussão e recursos financeiros
para solucioná-los. Por exemplo, adequação dos transportes coletivos
urbanos, controle de táxis vindos das cidades vizinhas e que circulam em
Mossoró, desobstrução das calçadas no centro da cidade e outros
semelhantes. Esses tipos de problemas uma vez enfrentados só levam a
desgastes dos gestores, a menos que tivesse bastante recursos
financeiros para resolvê-los.
SAÚDE?
Levar melhorias à saúde pública a todos quanto precisem. É louvável a
intenção, mas não existe isso em nenhuma parte do país, porque esse é
um problema de modelo nacional. O SUS precisa ser repensado quanto sua
forma operacional. Segurança é importante, mas uma atividade que requer
muitos recursos financeiros.
OPOSIÇÃO POLÍTICA
Em campo aberto há em Mossoró, 8 principais agrupamentos políticos:
1- Força Rosalba Ciarlini com Carlos Augusto, que além de votos conta
com um lubrificado esquema de comunicação demolidor (rádio e jornal);
2- Agrupamento Sandra Rosado com a ex-deputada Larissa Rosado que
também detém uma experiente organização de comunicação na cidade (rádio,
jornal e TV); 3- Agrupamento da ex-prefeita Fafá Rosado com seu esposo
deputado Leonardo Nogueira; 4- Grupo da ex-prefeita Cláudia Regina
apoiado pelo senador José Agripino; 5- Colegiado de vereadores formado
por Genivan Vale, Tomás Neto, Francisco Carlos e outros; 6- Partido dos
Trabalhadores – PT com alguns componentes, inclusive contrários à atual
gestão; 7- Diversos outros líderes que compõem os Sindicatos,
Associações Profissionais, Associações de Bairros e pequenos partidos
políticos e 8- Agrupamento do prefeito Francisco José Júnior com alguns
vereadores de apoio.
IMPRENSA RAIVOSA
Desse total de forças, apenas uma pequena parte não faz oposição
sistemática e organizada contra à atual gestão. Houve prefeitos aqui,
por dezenas de anos seguidos que nunca sofreram a mínima oposição. Nada a
censurar, afinal cada grupo tem suas razões de se portar como quiser,
não é isso que se questiona, mas o simples cenário real.
OUTROS FATORES DESGASTANTES
Por outro lado, todos os governos, federal, estadual e municipal
estão em declínio. A média de reprovação dos governantes brasileiros por
toda parte é em torno de 70%, independente de local e partidos.
Agravantes: Anos consecutivo de estiagem climática na região. Poderia
ter elegido Leonardo Nogueira deputado.
ÚLTIMA MILHA
Recentemente a ex-governadora Rosalba Ciarlini ficou apta a concorrer
às próximas eleições para prefeito de Mossoró. É indiscutível sua força
política. Questionável apenas se convém ela própria se candidatar ou
indicar um bom candidato de sua confiança. A ex-governadora sabe que a
cidade não é a mesma que ela administrou há décadas, vindo das mãos de
Dix-huit Rosado e João Newton da Escóssia com todo quadro pessoal mínimo
e prefeitura sem dívidas. A arrecadação da Prefeitura hoje é bem
inferior, guardado as devidas proporções da cidade, da época em que ela
administrou por três vezes. O povo no momento se encontra mais
instruído, organizado, reivindicador. Contribuições do Estado e do
federal não há esperanças. Quando um dia ela assumiu o governo do Estado
tinha certeza que teria condições de fazer muito pelo Rio Grande do
Norte. Não conseguiu. Desgastou-se no Estado com a péssima gestão
motivada por dificuldades circunstanciais.
CONVÉM?
A ex-governadora certamente irá pensar bem, se aceita ou não ser
candidata à Prefeitura de Mossoró, pois mesmo vitoriosa, fazer uma
gestão prodigiosa em apenas um ano e meio, para se candidatar ao Senado,
pode ser pior politicamente. As vezes, as circunstâncias são superiores
às qualidades pessoais. Pode ser o caso.
*Coluna Déjà vu

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