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Por Elviro Rebouças 

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Elviro Rebouças é economista e empresário

O cenário de inflação alta, previsão acima de 7% ao ano, crédito escasso e renda comprometida está fazendo a parcela da população brasileira que ascendeu para a classe C comprar menos nos supermercados neste começo de ano do que nos últimos seis meses. E a percepção para o ano de 2015 não é nada animadora, nem para a indústria, como para o comércio. Salva-se o setor de serviços.: O carrinho de compras deve continuar encolhendo. Estes são os primeiros resultados de uma pesquisa inédita, chamada “O Bolso do Brasileiro”, que o Instituto Data Popular, especializado na classe C, acaba de concluir. Já segundo a Nielsen, empresa especializada em pesquisar hábitos dos consumidores, diante deste cenário de comprometimento de renda, endividamento e inflação, a classe C é a mais afetada em sua vida financeira, já que apresenta em média um gasto 15% superior à sua renda mensal. Levantamento recente da Kantar Worldpanel, outra companhia especializada em pesquisar as tendências de consumo, mostrou que as classes C e D/E já diminuíram em cerca de oito vezes o número de idas aos pontos de venda, enquanto a classe A diminuiu apenas quatro vezes. Pela metodologia do Data Popular, as famílias da classe C têm renda média de R$ 2,9 mil e, nos últimos anos, passaram a consumir produtos e serviços antes inacessíveis. O levantamento foi feito entre os dias 18 e 29 de janeiro em 150 cidades do país, em 27 estados, e foram entrevistadas 3.050 pessoas.
DESCENDO UM DEGRAU
De acordo com a pesquisa, 47% dos entrevistados disseram estar comprando menos produtos no supermercado na comparação com os últimos seis meses. Outros 36% afirmaram que compram a mesma quantidade, e 12% responderam que estão comprando mais produtos. Os pesquisadores perguntaram aos entrevistados se nos próximos seis meses, pensando na condição financeira atual, eles esperavam comprar mais ou menos. Entre as respostas, 45% afirmaram que vão comprar menos; 36% disseram que vão comprar a mesma quantidade e 19% responderam que vão comprar mais. – O brasileiro da classe C já percebeu que a inflação está comendo sua renda e que está sobrando menos dinheiro para o consumo. Em relação ao futuro, ele mostra desesperança, porque não vê perspectiva de melhora da renda e da situação da economia em geral. Para ele, a inflação deve continuar subindo, assim como os juros do cheque especial utilizado por eles. Ou seja, o brasileiro que já passou aperto em 2014 começa 2015 preocupado em não conseguir encher o carrinho – avalia Renato Meirelles, presidente do instituto de pesquisa Data Popular. Para a Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), o aumento dos impostos e o crédito mais caro e restrito afetam todas as classes, mas especialmente a classe C, que pode até encolher neste ano. Quando a situação econômica se torna mais difícil, e a renda disponível fica menor, essas categorias podem até cair um degrau (na ascensão social que tinham experimentado). Meirelles, do Data Popular, ainda não vê um retrocesso na ascensão social dessa parcela da população, mesmo com a perda de poder aquisitivo. Ele explica que como o critério para definir classe social é o salário, enquanto o desemprego estiver em níveis baixos, não haverá mudanças. Mesmo com o emprego em alta, enquanto o desemprego não aumentar, esse brasileiro que ascendeu não vai sair da classe C. Mas seu poder de compra diminui, com o aumento da luz, alimentação, combustíveis, do aluguel e dos produtos em geral.
REAL É A TERCEIRA MOEDA MAIS DESVALORIZADA EM 2015
Notas de real: um dólar a R$ 3,00 já era projetado por alguns para o meio do ano. Após certa acomodação em janeiro, o dólar mostrou forte aceleração em relação ao real nas duas primeiras semanas de fevereiro. O movimento foi tão intenso que o real passou a ser a terceira divisa que, no acumulado de 2015, mais perdeu valor em comparação ao dólar, considerando um total de 47 moedas negociadas no mercado à vista de Forex (câmbio internacional). No fim de janeiro, a moeda brasileira era apenas a 23ª no ranking de Até sexta-feira, 20, o dólar já acumulava alta de 8,18% no ano, cotado a R$.2,875 em relação ao real. Esta valorização só é inferior à registrada pelo dólar ante a naira da Nigéria (+11,46%), a coroa da Suécia (+8,48%) .Sexta-feira última, o dólar à vista negociado no balcão direto, para troca imediata, subiu 0,32%, aos R$ 2,9440, no sétimo avanço dos últimos dez dias úteis. Nos últimos dias, o que mudou foi a percepção em relação ao Brasil. Em 30 de janeiro, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, deu a largada no movimento mais intenso de valorização do dólar ante o real ao afirmar que não tem a intenção de manter o câmbio “artificialmente valorizado”. Na visão de boa parte dos investidores, o comentário foi uma indicação de que o governo pretende deixar o câmbio livre e pode até acabar com o programa de leilões diários de swap (equivalentes à venda de dólares no mercado futuro) depois de março. As notícias que saíram nas duas primeiras semanas de fevereiro não foram favoráveis e elevaram o pessimismo em relação ao País. Do risco de racionamento de água e luz à desconfiança sobre a capacidade de o governo cumprir a meta para as contas públicas em 2015, tudo serviu de motivo para que os investidores buscassem a segurança do dólar. Após um início de ano que indicava um período de calmaria no câmbio, o cenário mudou. Várias ações do governo também pesaram para a desvalorização do real. As escolhas de Aldemir Bendine, Luciano Coutinho e de Miriam Belchior para a presidência da Petrobrás, permanência no BNDES e da Caixa Econômica, respectivamente, passaram um sinal contraditório. Esses três nomes são muito alinhados com a política econômica do primeiro mandato, o que colocou um pouco de dúvida sobre a disposição do governo de mudar a economia. Além disso, houve uma deterioração do quadro político com a eleição de do Deputado do PMDB-RJ Eduardo Cunha (PMDB) para a presidência da Câmara dos Deputados, o que tende a dificultar a relação do governo com o Congresso.
TENDÊNCIAS
Entre os profissionais ouvidos pelo Broadcast, serviço especializado em economia e finanças do jornal “O Estado de São Paulo”, há consenso de que a tendência para o dólar é de alta. E poucos se arriscavam a dizer em qual nível a moeda americana vai se estabilizar. Um dólar a R$ 3,00 já era projetado por alguns para o meio do ano, assim como uma moeda a R$ 3,20 no fim de 2015. A tendência mais geral para o dólar deve vir dos Estados Unidos. Se o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) der a partida em seu processo de alta dos juros, o mercado global de moedas tende a passar por mais ajustes de alta para o dólar.
MINISTRO JOAQUIM LEVY CAI NA REAL
Visitando os Estados Unidos, já pós-carnaval, o Ministro da Fazenda Joaquim Levy, em palestra para 150 grandes empresários americanos, constatou que a economia brasileira encolheu aproximadamente 0,40 % em 2014, e deu poucas esperanças de crescimento para 2015. Em tom suave, sem falar sobre Petrobrás, BNDES, Eletrobrás e outros focos de corrupção governamental, mas mencionando a deterioração (até 2014) das contas públicas, fez profissão de que melhores dias virão a partir de 2016, quando espera que o Brasil tenha reconquistado a credibilidade internacional. Em economia, meu caro leitor, de Natal ou Mossoró, de Apodi ou Alexandria, de Nova Cruz ou Pau dos Ferros, de Areia Branca ou Macáu, nada é mais importante para um país, do que ser acreditado. Obtivemos tal crédito, mas já há algum tempo estamos sempre na defensiva (estéril) dos nossos males, e dentre eles principalmente o da corrupção. Orlando Silva, o cantor das multidões, compôs e cantou há cerca de 60 anos, “Caprichos do Destino”, dizendo “É doloroso, mas infelizmente é a verdade”.

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