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“Hoje, 30 anos mais velho, lembro-me que acompanhei a eleição, torcendo ardentemente pela redemocratização tardia, no dia 15 de janeiro de 1985 assistí pela TV ao vivo, do meu gabinete no então Banco Mossoró”
Por Elviro Rebouças 
Elviro
Elviro Rebouças é economista e empresário

O tempo passa rápido, mas tem episódios dos quais nunca agente se esquece. Você leitor, principalmente se já passou pelo cabo da boa esperança dos 40 anos de idade, deve lembrar-se da epopéia que vivemos em 1984, com a emenda parlamentar do notável Deputado Dante de Oliveira (MT), que incluía na Constituição Federal o imediato retorno das eleições diretas para Presidente e Vice-Presidente da República. Apesar do alarido popular, a Proposta de Emenda Constitucional foi rejeitada pela Câmara dos Deputados no dia 25 de abril de 1984. Por se tratar de uma emenda constitucional, era necessário votos favoráveis de dois terços da Casa (320 deputados) para que a Proposta seguisse ao Senado. O resultado da votação foi: 298 deputados a favor; 65 contra; 3 abstenções e 113 ausências ao plenário. Antes da votação, passeatas com mais de um milhão de pessoas reunidas varreram o País, como no Rio de Janeiro e em São Paulo, o povo todo, mais de 300 mil eleitores nas ruas do Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre, Manaus, Vitória, Salvador e Curitiba pedindo pelo fim da ditadura militar. Líderes verdadeiros como Tancredo de Almeida Neves e Ulisses Guimarães, coadjuvados por um intrépido Leonel de Moura Brizola, o menestrel das Alagoas Teotônio Vilela, o orador das massas e líder do PMDB na Câmara, Mário Covas, a inteligência e o entusiasmo de José Serra, de Freitas Nobre, o carisma de Marcos Freire, o equilíbrio de Humberto Lucena, a lealdade de Jarbas Vasconcelos, as reservas morais de Pedro Simon, Paulo Brossard, José Aparecido de Oliveira e de Franco Montoro, o campineiro campeão de votos Orestes Quércia, o intelectual estadista Fernando Henrique Cardoso, a segurança de Alberto Goldman, o gracejador Roberto Cardoso Alves, os líderes incontestes Íris Rezende, Alencar Furtado e o norte-rio-grandense brilhante Aluízio Alves, o diplomata Severo Gomes, Itamar Franco, José Fragelli, Nelson Carneiro, Amaral Peixoto, Wellington Moreira Franco ,Arthur Virgílio Neto, o mitológico cearense que Pernambuco adotou Miguel Arraes, o carismático líder metalúrgico e Presidente do PT Luiz Inácio Lula da Silva, os decididos e corajosos Roberto Freire, Thales Ramalho, Francisco Pinto, José Richa, Álvaro Dias, Paes de Andrade, Chagas Vasconcelos e tantos outros. Aí coube ao também mineiro Aureliano Chaves (Líder da dissensão governista e Vice-Presidente da República, no governo do Gal. João Figueiredo), bradar altaneiro sua inconformidade com a candidatura de Maluf, que havia vencido o Cel. Mário Andreazza na disputa interna no PDS, e passou Aureliano para o movimento democrático e popular mais cristalino que sacodiu o Brasil nos últimos 50 anos. Sendo frustrado o sonho das Diretas Já, coube ao conciliador de São João del Rey, Tancredo Neves, reunir todos e criar a Aliança Democrática para, mesmo em um colégio eleitoral imposto pela ditadura militar para ser feita a vontade dos déspotas , disputar, convocando a brasilidade de cada um, e vencer a eleição presidencial em 15.01.1985, marcando o ponto final dos anos de chumbo iniciados em 1964. Para isto o PMDB contou com o Partido da Frente Liberal (PFL), criado com precípua finalidade do acordo, tendo seus expoentes saídos dos hostes do próprio governo militar, dissidentes à candidatura de Paulo Maluf. Aí, por justiça, foi considerável a participação de José Sarney, Marco Antônio Maciel, Antônio Carlos Magalhães, Jorge Bornhausen, Guilherme Palmeira, João Calmon, Cláudio Lembo, Ney Braga, o então governador do Rio Grande do Norte, José Agripino Maia, Roberto Magalhães, Antônio Carlos Valadares, João Alves, Albano Franco, dentre muitos outros. Depois de percorrer todo o Brasil, arrebanhando multidões favoráveis a sua eleição, Tancredo, com José Sarney como candidato a Vice-Presidente, chega vitorioso ao dia 15.01.1985. Sorridente, Tancredo Neves ajeita a gravata enquanto o assessor e futuro ministro Mauro Salles aguarda com o telefone na mão. Do outro lado da linha, o presidente João Figueiredo. Políticos, seguranças e jornalistas se acotovelam para ouvir o telefonema que marca o fim do regime militar. Era 15 de janeiro de 1985. Tancredo, do PMDB, havia acabado de ser eleito indiretamente presidente da República. Chovia forte em Brasília; e o público se abriga sob uma bandeira nacional de 250 metros quadrados nos jardins do Congresso. Outros, mais animados, escalam a cúpula de concreto, a chamada chapelaria do Congresso. É a festa da “Nova República”, termo cunhado pelo próprio Tancredo em seu discurso de vitória, e que hoje completa 30 anos. “Que o senhor consiga dar ao povo brasileiro tudo aquilo que ele deseja e merece”, diz o general ao presidente eleito, que nunca chegou a tomar posse. Numa sessão que durou três horas e meia, o Colégio Eleitoral escolheu Tancredo por 480 votos, contra 180 do candidato Paulo Maluf, do PDS. Maluf vê 166 deputados de seu partido votarem no PMDB. Sob gritos de “traidor” por parte dos malufistas, o líder do governo, Nelson Marchezan, abstém-se. Maluf encara a derrota, ignora as vaias e, diante das câmeras, abraça carinhosamente Tancredo, parabenizando-o pelo sucesso. Nas praças das capitais, o público delira com o resultado, que já era esperado. O voto que garantiu a maioria a Tancredo é o de número 344 e vem do deputado João Cunha, do PMDB, de São Paulo, ele foi enfático “Tenho a honra de dizer que o meu voto enterra a ditadura funesta que infelicitou a minha pátria”. Na bancada do PT, os oito deputados haviam rachado sobre a determinação da legenda de se abster da votação. Dos oito, três se rebelaram e votaram em Tancredo, um deles o deputado Ayrton Soares, líder da bancada na Câmara. Ele, Bete Mendes e José Eudes foram expulsos, num erro crasso petista, ainda hoje de todo não absorvido pela sociedade e um feito contra a democracia. Eleito, Tancredo mostra em seu discurso como agiu desde a campanha das “Diretas Já”, no ano anterior, para a transição pacífica. Sem alusões aos tempos sombrios do regime militar, Tancredo fala do futuro, de um pacto democrático e da importância da Constituinte que estava por vir. Elogia as Forças Armadas por “sua decisão de se manterem alheias ao processo político”. No discurso, que teria contado com a ajuda do escritor Mauro Santayanna, Tancredo diz também que a vitória era esperada sem surpresas. Só aceitou assumir a candidatura quando houve a dissidência no PDS, que nos deu a esperança objetiva de ganhar a eleição. Tancredo conhecia o Congresso tanto quanto seu próprio rosto.
Hoje, 30 anos mais velho, lembro-me que acompanhei a eleição, torcendo ardentemente pela redemocratização tardia, no dia 15 de janeiro de 1985 assistí pela TV ao vivo, do meu gabinete no então Banco Mossoró. Hoje, eu digo que valeu. Embora Doutor Tancredo, eleito Presidente, só tenha subido à rampa do Palácio do Planalto, morto e envolto nos braços do povo, dentro do seu caixão funerário, ficou na nossa consciência, aquela frase que varreu o Brasil, de norte a sul, e que nunca mais será esquecida:
“TANCREDO PRESIDENTE/ O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO”.

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