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O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, discursou pela primeira vez ao Congresso americano ao completar 100 dias na Casa Branca. Em 70 minutos de discurso, Biden enfrentou temas que são tabus na sociedade americana, anunciou projetos econômicos importantes e defendeu a retomada do protagonismo americano diante das grandes questões globais.

"O futuro pertence à América", disse Biden, enfatizando o papel que espera para o país no cenário global diante da atual crise do novo coronavírus. Olhando para dentro dos EUA, mas com impacto no mundo todo, ele apresentou dois grandes programas: o "Plano das Famílias Americanas" e o "Plano dos Empregos Americanos".

Juntos, os planos representam uma mudança na trajetória histórica dos Estados Unidos, segundo o analista de política internacional da CNN Lourival Sant'Anna. Joe Biden propõe um plano com forte atuação do Estado na economia, financiado por uma taxação adicional dos mais ricos, em sentido oposto ao que defendia seu antecessor, Donald Trump.

O Plano das Famílias Americanas se trata de uma estratégia de grandes proporções: um investimento federal de US$ 1,8 trilhão (cerca de R$ 9,7 trilhões), que terá como principais focos a educação, as creches e as licenças remuneradas.

Já o Plano dos Empregos Americanos prevê investimentos em estradas, pontes, ferrovias, escolas e banda larga, sendo liderado pela vice-presidente Kamala Harris.

Joe Biden disse que ali no Congresso, onde presidentes americanos já discursaram para declarar guerra ou paz, ele queria falar de "crises e oportunidades". Falou em "revitalizar" a democracia e "ganhar o futuro para os EUA".

"Esta noite eu venho para falar sobre crises e oportunidades. Oportunidade de revitalizar nossa democracia e ganhar o futuro para os EUA"

Nos últimos quatro anos, o ex-presidente Trump defendia que os Estados Unidos deveriam estar mais distantes dos órgãos de deliberação global. Trump deixou o Acordo de Paris e fez movimentos para deixar a Organização Mundial da Saúde (OMS), dois passos já desfeitos por Biden.

Em seu discurso, o presidente enfatizou a promoção da Cúpula de Líderes sobre o Clima, organizada pela sua administração na semana passada, e os resultados obtidos diante desse novo protagonismo dos Estados Unidos na pauta ambiental. Biden reforçou a posição de que políticas contra as mudanças climáticas podem permitir a geração de empregos.

'Liderança americana'

Ainda falando sobre o seu conceito de "liderança americana", Joe Biden voltou a dizer que o país vai encerrar a Guerra do Afeganistão.

“A liderança americana significa que vamos encerrar a guerra no Afeganistão. Eu tive um filho que serviu numa zona de guerra e hoje temos soldados servindo em locais onde os pais deles serviram, temos soldados que não tinham nascido no 11 de setembro. 

"Fomos ao Afeganistão enfrentar os terroristas, dissemos que seguiríamos Bin Laden até o inferno se fosse preciso, derrubamos a Al Qaeda com sacrifício e agora é hora de trazer essas tropas de volta para casa."

Biden, no entanto, adotou uma postura crítica em relação à Rússia. Ele enfatizou as investigações a respeito de ataques cibernéticos e disse que deixou "muito claro" ao presidente russo Vladimir Putin que os EUA irão rebatê-los.

"As ações têm consequências, e elas se tornaram verdadeiras, os ataques cibernéticos às nossas empresas. Eles fizeram isso e eu disse que vamos revidar. Trabalhamos em programas nucleares, juntos trabalhamos em acordos climáticos, mas eu disse que vamos responder a isso. Nós vamos lidar com a ameaça através da democracia”, disse o presidente norte-americano.

Covid-19

Joe Biden prometeu antes da eleição que distribuiria 100 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 em 100 dias. Tendo dobrado a meta, ele enfatizou o resultado da campanha promovida e as medidas de auxílio social que adotou nos seus primeiros três meses no cargo.

"Nós passamos um dos maiores pacotes de resgate da história americana e já estamos vendo os resultados. Como prometi, conseguimos aplicar mais de 100 milhões de vacinas, fornecemos mais de 200 milhões. Dobramos o prometido. Estamos aplicando todos os recursos federais para que as vacinas sejam aplicadas em 7 mil centros comunitários, ampliando para atingir comunidades com dificuldades", disse Biden.

"Todos acima dos 16 anos podem tomar a vacina agora. Quando quiserem, vão se vacinar, ela está disponível"

Em seu discurso, Biden destacou a ajuda financeira dada às famílias e como a medida impactou a renda dos americanos durante enfrentamento da pandemia de Covid-19.

"Já mandamos mais de 160 milhões de cheques. Isso faz a diferença para muitas pessoas, para mães solteiras. Com esse cheque, a mesa voltou a ter alimento. Uma das imagens mais marcantes desta pandemia, para mim, foi a fila de carros, bons carros, com pessoas esperando uma caixa de alimentos. Eu nunca imaginei ver isso. É por isso que o plano de resgate dá assistência para milhares de americanos. Essas ações que evitam o despejo de pessoas, empréstimos que permitem que empresas continuem abertas. Também cortamos a pobreza infantil pela metade", comentou o presidente.

"Uma das imagens mais marcantes desta pandemia, para mim, foi a fila de carros, bons carros, pessoas esperando uma caixa de alimentos. Eu nunca imaginei ver isso."

Biden acrescentou que a economia do país gerou mais de 1,8 milhão de empregos em 100 dias, o que disse ser mais que qualquer presidente conseguiu nesse período.

"É a maior taxa de crescimento desse país em quase quatro décadas. Com a competição com a China e outros países, precisamos ganhar o século XXI, temos que competir de maneira ainda mais firme. Pense no investimento público e infraestrutura. Ele pode trazer novas oportunidades. Ajuda às universidades, fomos a Marte, investimentos que nos levaram ao futuro, por isso proponho o Plano de Emprego, o maior desde a Segunda Guerra Mundial". 

'A classe média construiu esse país'

Joe Biden passou grande parte do dia trabalhando com seu redator-chefe de discursos, Vinay Reddy, e um de seus conselheiros mais próximos, Mike Donilon. O presidente sabia que anunciar alta em tributos causaria forte repercussão e buscava, segundo uma fonte do governo americano informou à CNN, "deixar bem claro que ninguém que ganhe menos de US$ 400.000 ao ano verá um aumento de impostos".

Em uma das frases mais marcantes da noite, Biden afirmou: "A classe média construiu esse país". A fala foi interpretada como uma resposta às críticas que o presidente tem sofrido do mercado financeiro devido a sua posição de expandir os gastos públicos e aumentar impostos.

"As pessoas pensam, 'será que faço parte desse plano'? Quase 90% dos cargos não exigem diploma universitário, muitos não existem diploma tecnólogo. A classe média construiu esse país. Aprovem o projeto para podermos apoiar o direito à sindicalização. Vamos aumentar o salário mínimo para US$ 15 por hora. Ninguém trabalhando 40 horas por semana deveria viver abaixo da linha da pobreza. Devemos assegurar equidade para as mulheres também. Devemos cuidar disso já", destacou. 

"Aprovem o projeto para podermos apoiar o direito à sindicalização. Vamos aumentar o salário mínimo para 15 dólares por hora. Ninguém trabalhando 40 horas por semana deveria viver abaixo da linha da pobreza."

Na agenda econômica, Biden pretende aumentar impostos sobre os mais ricos, com a justificativa de recompensar o trabalho e não a riqueza. A proposta das novas medidas arrecadaria cerca de US$ 1,5 trilhão (aproximadamente R$ 8,1 trilhões) em uma década.

"As maiores empresas pagam zero de impostos federais e essas instituições tiveram muito lucro. Muitas empresas também fazem evasão de impostos e se beneficiam de deduções e levam empregos para outros países. Isso não está certo. Vamos reformar para que eles paguem os investimentos públicos e os negócios deles continuarão indo muito bem."

"Eu não quero aumentar o imposto de nenhuma pessoa que ganha menos de 400 mil dólares ao ano, mas sim dos mais ricos, para que eles paguem a fatia mais justa. Você pode ser milionário, mas pague a sua parte."

O presidente americano utilizou em seu discurso o empoderamento à classe média e destacou que o país deve "crescer de baixo para cima". 

"Devemos pensar no 1% mais rico e eles devem pagar os impostos. Eu não quero punir ninguém, mas não vou acumular impostos para a classe média. Quero ser justo. Isso vai melhorar a situação financeira do nosso país. Precismos pensar em como crescer essa economia de baixo e do meio para cima. É um consenso do legislativo que, quando eu proponho criar milhões de empregos, esse é um dos maiores investimentos que podemos fazer como nação". 

'Saúde deve ser um direito, não um privilégio'

Dentre os anúncios, o democrata falou sobre a redução no preço dos medicamentos aos americanos.

"Além do plano das famílias, quero trabalhar no Congresso com outras questões. Vamos baixar o custo dos remédios vendidos sob prescrição. Sabemos como os remédios são caros nos EUA. Vamos dar ao Medicare o poder para negociar preços menores para os medicamentos. Isso vai economizar bilhões de dólares sem custar mais aos cidadãos. A saúde deve ser um direito e não um privilégio nos EUA". 

Imigração

Em campanha eleitoral para a presidência americana, Joe Biden ressaltou que trataria de políticas para tratar o processo de imigração nos Estados Unidos. Em seu discurso de 100 dias de governo, Biden anunciou que a vice-presidente, Kamala Harris, está à frente do assunto.

“A imigração é um tema que sempre foi importante para nós e vamos tratá-lo de uma forma justa. Na minha campanha, falei do meu compromisso, falamos da segurança nas fronteiras, e de 11 milhões de cidadãos não documentados que entraram neste país. Nós precisamos tratar do problema de porque as pessoas estão atravessando a nossa fronteira. Temos que focar nas raízes do problema da imigração. Eu pedi que a vice-presidente Harris cuidasse desse problema agora, e eu tenho certeza que ela vai cuidar”.

Racismo e população LGBTQIA+

Joe Biden falou novamente sobre o diálogo que teve com a filha de George Floyd, no funeral de seu pai, há um ano.

“Olhei nos olhos e ela me disse: meu pai mudou o mundo. Depois da condenação do assassino de Floyd, vimos como ela estava certa", afirmou. Biden deu sequência ao discurso sobre racismo nos EUA reafirmando que é preciso “lidar com o racismo sistêmico que ataca o país”.

“Temos que trazer oportunidades nas vidas de mais americanos, asiáticos, indígenas, latinos. Quero agradecer também ao Senado por votar a lei que protege os asiáticos americanos. Vocês viram na TV os crimes de ódio terríveis e mantivemos isso por muito tempo. Quando essa legislação chegou na minha mesa eu assinei rapidamente para que passasse logo”, disse.

O democrata defendeu a proteção às mulheres e reiterou o compromisso com políticas públicas para proteger pessoas LGBTQ+. “Também tenho na minha mesa a lei para proteger as pessoas transgêneras. Saibam que o presidente cuida de vocês. Também vamos cuidar da lei de violência contra a mulher. Ela precisa ser aprovada, foi escrita há 20 anos por mim. Precisamos fazer com que homens que ataquem mulheres não tenham uma arma. 50 mulheres são assassinadas a tiros por mês nos EUA, vamos aprovar e vamos salvar vidas”, afirmou.

Veja o discurso do presidente dos EUA na íntegra:


CNN Brasil



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