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A pandemia do novo coronavírus fez do ano de 2020 o mais letal do qual se tem registro no Rio Grande do Norte até hoje. Levantamento feito pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen Brasil), que representa os cartórios do País, aponta que 19.333 pessoas morreram no ano passado. São 10,15% a mais que o registrado em 2019 (17.550). No Brasil, pelo menos 1,4 milhão de pessoas morreram no mesmo período – 8,6% a mais que no ano anterior.

Nos registros cartoriais, 2.310 pessoas morreram em decorrência da Covid-19 no Rio Grande do Norte em 2020. O número de vítimas, no entanto, é maior. No boletim epidemiológico da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sesap/RN) divulgado no dia 31 de dezembro, a pandemia havia matado 2.993 pessoas. Os sistemas de registros cartoriais e da Sesap são independentes, e o que explica a diferença é que, no cartório, parte das mortes causadas pela Covid-19 são registradas como decorrentes da Síndrome Aguda Respiratória Grave e da pneumonia.

As mortes provocadas por causas respiratórias foram as principais responsáveis por elevar o número de um ano para o outro no Estado. Enquanto 2019 teve 4.183 mortes registradas por causas respiratórias diversas, como pneumonia ou Síndrome Respiratória Aguda Grave, o ano de 2020 registrou 4.983 óbitos provocados por doenças dessa natureza.

Segundo o epidemiologista Ion Andrade, existem casos em que os pacientes contraem pneumonia ou tem um quadro respiratório grave decorrente da Covid-19 e não é diagnosticado corretamente. “Isso acontece no mundo todo. Pode ser um caso de um idoso, por exemplo, que tem histórico de pneumonia e de repente contrai a doença mais uma vez, desta vez em decorrência da Covid-19. O médico pode não se atentar a fazer esse diagnóstico e apenas considerar pneumonia”, explicou.

As mortes por causas cardiovasculares também tiveram um salto de um ano para o outro. Em 2019 foram 882 mortes por razões cardiovasculares inespecíficas, número que cresceu para 1.292 no ano passado (46,4% a mais de vítimas). “Com as cardiovasculares acontece o mesmo. Existem pacientes com Covid-19 que morreram com complicações cardiovasculares que surgiram após o vírus.”

Ainda de acordo com Andrade, quando as mortes por essas causas crescem de um ano para o outro ocorre o fenômeno chamado de “excesso de óbitos”. Significa dizer que provavelmente as mortes decorrem de outras causas, que ficaram apagadas. O mesmo ocorreu na epidemia de H1N1, em 2009.

O aumento no número de mortes por doenças cardiovasculares inespecíficas, para os especialistas, está associada a outro dado observado no Portal da Transparência de Registros: o aumento das mortes em domicílio, que pode ser explicado pelo temor de muitas pessoas de irem aos hospitais e serem expostos ao coronavírus. Além disso, a sobrecarga no sistema de saúde provocada pela doença em muitos dos meses do ano fez com que muitas pessoas tivessem mais dificuldade em conseguir atendimento médico.

Os números, que estão disponíveis no Portal da Transparência do Registro Civil, ainda podem crescer, uma vez que muitos dos óbitos de 2020 ainda não foram registrados ou aguardam confirmação de causa para serem adicionados ao registro.

Superlotação

Em Natal, a situação de aumento de óbitos já era vista com preocupação pela Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur), responsável pela administração dos Cemitérios Públicos da cidade.

A capital potiguar não dispõe, desde 2020, de novas vagas em Cemitérios, e os enterros são feitos em espaços provisórios. Segundo a Semsur, a ampliação no número de vagas das necrópoles públicas da cidade “é uma das prioridades da gestão para o ano de 2021”.

Atualmente, há um projeto para verticalização de túmulos em fase de estudos, que pretende ampliar em mil o número de vagas existentes no cemitério Bom Pastor 2. Concluída a fase de estudos, a Semsur dará início ao processo licitatório para a contratação da empresa responsável pela construção dos novos jazigos.

A Semsur confirmou que Natal “sofre com a defasagem de vagas nos Cemitérios Públicos”. “As vagas existentes são referentes a jazigos familiares. Isso não quer dizer que uma família que necessita sepultar um ente querido vai ficar desassistida, uma vez que ainda há vagas provisórias", frisou a Semsur em nota.

Para dar conta do aumento na demanda nos Cemitérios provocada pela pandemia, foi firmado também um convênio entre a Prefeitura de Natal e o Grupo Vila, que permitiu desafogar a quantidade de sepultamentos em 2020. Apesar da solução paliativa encontrada, a Semsur afirmou que pretende construir as novas vagas nos Cemitérios Municipais da cidade ainda este ano. Segundo a Secretaria, o montante de mil vagas “é suficiente para suprir as atuais necessidades do município".

Mortes por Covid são o dobro de homicídios

O número de pessoas que morreram em decorrência da Covid-19 em 2020 foi praticamente o dobro de vítimas de homicídio. Segundo as estatísticas do Observatório da Violência do Rio Grande do Norte (Obvio), 1.499 homicídios foram registrados no Estado no ano passado, contra 2.993 mortes em decorrência somente da Covid-19 – conforme os dados da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sesap).

Assim como o número geral de óbitos, os homicídios subiram em relação a 2019. O crescimento foi de 3,02%, segundo os dados da Coordenadoria de Informações Estatísticas e Análises Criminais (Coine). De acordo com a Coine, os meses de fevereiro, abril e outubro registraram números de mortes muito maiores em 2020 do que no ano anterior. O isolamento social, com menos pessoas circulando nas ruas, não foi capaz de reduzir a violência nesses meses no Estado.

Os homicídios dolosos cresceram na passagem de 2019 para 2020, saltando de 1.074 para 1.222 ocorrências. As mortes provocadas pelas armas de fogo lideraram o ranking dos meios empregados ao longo do ano passado com 1.311 registros, seguido por arma branca (96) e espancamento (25).

Em outubro, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) já havia publicado um estudo que indicava que a pandemia não havia reduzido a violência. O estudo destacou o crescimento das mortes decorrentes de intervenção policial, latrocínios e homicídios e o crescimento de estupro de vulneráveis.

O isolamento social imposto pela pandemia da covid-19, com mulheres e potenciais agressores convivendo mais tempo sob o mesmo espaço físico, ampliou também os casos de lesão corporal e ameaça. Os casos de lesão corporal cujas vítimas são especificamente do sexo feminino aumentaram 13,6% de janeiro a junho deste ano no Rio Grande do Norte ante mesmo período do ano passado. Em números absolutos, foram cometidos 1.081 atos do tipo nos primeiros seis meses deste ano contra 952 no mesmo intervalo de tempo de 2019.

Os casos de estupro de vulnerável (que envolvem pessoas incapazes de responderem por si, sejam crianças, adultos ou idosos com algum tipo de deficiência física ou mental) mereceram destaque negativo. No Estado, o crescimento dos casos registrado foi de 47,5% (de 99 para 146). Quando realizada a separação das vítimas, o número é ainda mais consistente negativamente em relação às mulheres: de 73 de janeiro a junho de 2019 para 118 casos no mesmo intervalo deste ano. Alta de 61,6%.

As tentativas de pedido de socorro, seja para si ou terceiros, através das ligações ao 190 registradas sob a natureza de violência doméstica se elevaram no período estudado: de 1.681 para 1.711 (alta de 1,8%).

Tribuna do Norte


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