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Por Antônio Brito* do Poder 360

Chegamos às festas de final de ano com uma dificuldade insuperável: como afastar, depois de tudo que aconteceu, essa imensa tristeza sobre a situação do  Brasil? Como trocar mensagens, receber abraços virtuais e conviver com os poucos a quem devemos encontrar pessoalmente sem a pesada sensação de que nunca sofremos tanto em doze meses quanto nesse interminável 2020?

Bastaria a pandemia, por certo. Somos 190 mil histórias de perdas – onde além da morte de pessoas próximas, ficou a frustração de saber que muitas delas poderiam  ter sido evitadas, fosse outro o País. Somos 7 milhões de famílias comovidas com o sacrifício dos profissionais de saúde mas que não esquecem a falta de respeito e empatia com que foram tratadas pelo Governo Federal.

A pandemia, infelizmente, não é tudo. Em parte por culpa dela, perdemos mais empregos e mais empresas que em qualquer outro ano de nossa história. E vimos esta  conta ser dividida desproporcionalmente para, como sempre, atingir mais aos negros, aos pobres, aos jovens e às periferias injustiçadas.

Mas apenas a pandemia e a crise econômica e social, apesar de extremamente graves, serão suficientes para justificar o sentimento sombrio deste Dezembro?

Os brasileiros estamos, acima de tudo, vitimados pela pior doença que pode atingir uma sociedade: não sabemos onde encontrar esperança. Logo nós, campeões mundiais em sonhar que “amanhã será melhor”, que basta um ano novo para trocar problemas antigos por soluções rápidas. Logo nós, iludidos durante décadas ao ouvir que seríamos o País do futuro.

Na lista de esperanças que se dissiparam havia apostas na direção correta. Por exemplo que a democratização, isoladamente, nos faria menos desiguais ou que apenas a derrota da inflação geraria desenvolvimento e, este, justiça. Também esperanças que, apesar de infundadas, tornaram-se comuns como acreditar nos que se diziam descomprometidos com nosso passado e nossos fracassos; entregar nossos votos aos mercadores que transformam religião e politica em atividade comercial e exploram o desespero da população ao prometerem soluções populistas para a complexa situação brasileira.

Em síntese: o que fez deste 2020 um ano tão amargo foi enfrentarmos dificuldades e perdas terríveis sem um mínimo de liderança e sinalização para nos unir na tentativa de superá-las.

Do governo federal, elas não virão. Bolsonaro não é o responsável por tudo que acontece no Brasil. Acreditar nisso seria uma simplificação perigosa: não explica como a população tornou-se tão desesperançada a ponto de ouvi-lo e ainda pode reduzir a culpa dos que erraram tanto para, ao fim, permitir que alguém como ele pudesse chegar ao Poder. Mas Bolsonaro passará à história pelo crime que comete diariamente ao ofender e fragilizar a simbologia que o presidente da República carrega. E, assim, descumprir a primeira das regras não escritas da vida democrática – entender os limites do próprio poder. Em uma crise como esta, qualquer ser humano normal usaria o cargo e sua dimensão simbólica para consolar, conciliar, gerar um mínimo de conforto e de esperança. Bolsonaro, ao contrário, tornou-se um farol às avessas – vale-se da estrutura do cargo para apontar para a escuridão.

Talvez o Congresso Nacional pudesse ter atravessado 2020 semeando a confiança que buscamos. O bom senso demonstrado em algumas decisões durou tanto quanto um deputado do centrão resiste em ficar longe de cargos por onde passem os quase desaparecidos recursos federais. Nada mais simbólico que a Câmara dos Deputados tenha se ocupado neste último mês do ano em fazer de um réu, frequentador contumaz das piores práticas da República, o candidato favorito a presidi-la.

A geografia das possibilidades de esperança termina no Supremo Tribunal. E termina mesmo porque em 2020 a maioria dos 11 ministros recusou-se, mesmo diante de todas as crises, a cumprir seu papel mais importante – oferecer serenidade e segurança jurídica ao País. Em vez de concentrar-se em seu papel constitucional, aventurou-se, por boa parte de seus integrantes, em confabulações palacianas ou tentativas de rebaixar-se à tarefa de gerir questões menores ou internas de outros Poderes. Nada mais indicativo de sua crise que terminar o ano tendo que aprender, pela reação da opinião pública que proibir não e sinônimo de permitir…

Aturdida a sociedade anda em círculos, sem encontrar porta aberta em qualquer dos Poderes. Este aparente fracasso pode, porém, apontar a resposta que ela busca. Basta pesquisar de onde vieram as únicas boas noticias de 2020: da própria sociedade.

Sociedade que se multiplicou em iniciativas para apoiar os abandonados em meio à pandemia, com exemplos emocionantes nascidos dentro das comunidades sem qualquer participação de governos. Profissionais de saúde que decidiram não olhar para ministros despreparados e fizeram de cada hospital um cenário de heroísmo. Empresários, poucos, com a coragem de denunciar o absurdo que se praticou em 2020 no campo ambiental. Jornalistas que não se deixaram intimidar apesar das pressões diárias. Movimentos sociais que fizeram avançar a resistência contra ideias medievais sobre costumes e ironicamente transformaram diversidade em uma palavra vencedora durante o ano. Cientistas que seguem, apesar de tudo, defendendo o saber e o conhecimento. Professores não corporativistas que atravessaram os fundões do País para levar apoio a alunos abandonados. Iniciativas, para citar apenas duas, como o Instituto Igarapé ou o Todos pela Educação, abrindo espaço para ideias em territórios abandonados como direitos humanos e as escolas.

Fica aqui, então, uma sugestão para o seu Natal e Ano Novo. Se quiser repetir o comportamento habitual e mal sucedido, deposite suas esperanças onde elas não vingaram. Ou, ainda, acomode-se na ideia de que não há saída e com isso amplie o espaço para os raivosos “contra tudo isso que está aí”. Mas se quiser inovar e tirar uma lição de todo sofrimento e tristeza de 2020 não olhe para cima -olhe para os lados. Hoje, nesse dezembro triste, o futuro depende mesmo do que formos capazes de fazer e avançar como sociedade.

* Antônio Britto Filho, 68 anos, é jornalista, executivo e político brasileiro. Foi deputado federal, ministro da Previdência Social e governador do Estado do Rio Grande do Sul. 


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