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A persistência do coronavírus no organismo de algumas pessoas é muito maior do que se pensava. Num trabalho pioneiro, cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) acompanharam e documentaram o caso de uma mulher que permaneceu 152 dias infectada com o Sars-CoV-2 com capacidade se multiplicar, isto é, potencialmente contagioso.

Essa é a mais longa persistência de coronavírus já documentada no mundo e evidencia o importante papel dos assintomáticos na propagação da pandemia.

O trabalho é dos grupos dos cientistas Luciana Costa, Amilcar Tanuri e Teresinha Marta Castineiras, professores do Instituto de Microbiologia, do Instituto de Biologia e da Faculdade de Medicina da UFRJ. Ele reforça a hipótese de que os assintomáticos são os pilares de sustentação da disseminação do Sars-CoV-2.

A mulher, identificada apenas como a Paciente Número 3, é uma profissional de saúde do Rio de Janeiro que adoeceu em março, sem maior gravidade. Ficou três semanas com sintomas leves e não precisou ser internada. Depois, os sintomas se foram, mas não o coronavírus.

O caso é o mais longo, mas não é isolado. Essa descoberta faz parte do trabalho da força-tarefa de estudo do coronavírus realizado pela UFRJ e coordenado pela professora Teresinha Marta, que desde março testou por RT-PCR (molecular) mais de 3.000 pessoas (o número de casos aumenta a cada dia), em sua maioria profissionais de saúde do estado do Rio de Janeiro.

Luciana Costa destaca que 40% das pessoas testadas continuaram a ser positivas 14 dias após o aparecimento dos sintomas, o período padrão de negativação pelo Ministério da Saúde. Isto é, quando a pessoa deixa de transmitir o vírus e poderia sair do isolamento e voltar a trabalhar.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) estipulam um prazo ainda menor, de 10 dias estando assintomáticas por três dias consecutivos.

Em cerca de 60% das pessoas infectadas, o coronavírus deixa de se replicar nas vias aéreas superiores após 10 dias. Por isso, não pode ser mais transmitido. O coronavírus não faz viremia, ele não circula no sangue. Porém, cientistas supõem que possa se esconder em outras partes do corpo, que funcionem como reservatórios.

Em algumas pessoas, por motivos ainda desconhecidos, ele poderia deixar seu esconderijo e voltar a se multiplicar em boca e nariz, sendo de novo transmissível. O grande problema e o que faz o vírus insidioso é que a pessoa pode não manifestar sintomas, não saber que está contagiosa e mais uma vez e propagar a Covid-19.

A Paciente N° 3 faz parte de um detalhamento do estudo com os profissionais de saúde. Luciana Costa e seu grupo selecionaram 50 pessoas que retornaram mais de duas vezes para fazer a testagem e investigaram seus casos em minúcias.

Das 50 pessoas, oito, ou cerca de 15%, tinham vírus infecciosos, com potencial de transmissão, após 14 dias. Algumas por mais de 40 dias. Os cientistas descobriram isso porque conseguiram isolar os vírus das amostras e viram que ele se replicava normalmente em culturas de células.

“Uma das coisas que investigamos é a segurança de voltar ao trabalho após três dias do desaparecimento dos sintomas. Se o vírus se multiplica, é porque ele infecta”, diz Luciana Costa.

Os pesquisadores da UFRJ agora pesquisam se as 42 pessoas que não tiveram vírus capazes de se multiplicar desenvolveram os chamados anticorpos neutralizantes, os únicos capazes de destruir o coronavírus. A questão é que esses testes são demorados e artesanais. Não podem ser realizados em grande escala.

“Por isso, consideramos que profissionais de saúde só devem retornar ao trabalho após negativarem em exames moleculares de PCR. E para a população, em geral, a segurança só virá com uma vacina. Antes disso, é máscara e distanciamento social “, frisa Costa.

A história da Paciente Nº 3 revela uma faceta importante dos mecanismos que mantêm viva a pandemia. Ela foi testada em março, ao procurar o posto da UFRJ com sintomas. Estes permaneceram por três semanas. Assim como o coronavírus.

A mulher continuou a se testar, e a cada sete dias era colhida uma amostra. Por dois meses, ela foi ao laboratório e continuou positiva. Luciana conta que a mulher começou a ficar angustiada com a situação e ficou um tempo sem aparecer no laboratório.

Ao longo desse período, ela pode ter transmitido o vírus, e isso ainda está sendo determinado. Ela voltou a procurar o laboratório por temer estar ainda infectada. Sua suspeita foi comprovada. O vírus estava presente em suas vias aéreas superiores e ativo.

A Paciente N° 3 é um caso evidente de persistência do vírus. Ela não foi reinfectada. Essa possibilidade foi afastada porque a sequência genética do coronavírus era a mesma em todas as amostras. Ela tampouco desenvolveu anticorpos neutralizantes, mas não adoeceu de novo. Uma hipótese é que tenha sido protegida diretamente por células do sistema imunológico.

“Essa mulher viveu cinco meses com o coronavírus. O caso dela foi descoberto porque é uma profissional de saúde, mais atenta para o risco de transmissão e desde cedo participou do estudo. Mas suspeitamos que a persistência não é rara. Pode haver muita gente assim, e isso ajuda a explicar por que a circulação do coronavírus continua a se manter”, salienta Costa.

Se muita gente adoecesse, seria difícil para o vírus continuar a circular em grande escala.

“Uma das características que faz o Sars-CoV-2 perigoso é que ele circula em muita gente sem sintomas, que nem sabe que está infectada. E são essas pessoas que o levam adiante com eficiência. Os doentes são evidentes e nem saem tanto de casa. Mas os assintomáticos são a forma invisível de o coronavírus se espalhar”, frisa a Costa.

O Globo



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