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Por Thomas Traumann do Poder 360

Faltando 50 dias, as eleições americanas oferecem apenas duas certezas. A primeira é que o resultado não será dado na noite de 3 de novembro, com uma provável guerra jurídica que pode demorar semanas ou meses. A segunda é que, se Donald Trump vencer, ele se vingará de todos que se opuseram a ele, incluindo países. O esforço em bajular e o medo da raiva de Trump é o novo termômetro da diplomacia, incluindo a de Jair Bolsonaro.

Nesta semana, o governo Bolsonaro decidiu estender uma medida que zera o imposto de importação sobre o etanol americano, beneficiando os agricultores do estado do Iowa e prejudicado o setor sucroalcooleiro brasileiro. Dezenas de deputados ligados ao agronegócio insistiram publicamente junto ao presidente que não renovasse o privilégio, que apenas amplia a vantagem americano no comércio bilateral. Entre janeiro e agosto, o Brasil comprou mais que vendeu para os EUA mais de US$ 3 bilhões. Em comparação, nos 8 primeiros meses de 2019 o déficit era de R$ 213 milhões. Também não há necessidade de importar etanol, uma vez que a queda no preço do petróleo nos últimos meses diminuiu a demanda deste combustível. A decisão de Bolsonaro não faz sentido político, nem econômico, nem de abastecimento.

Bolsonaro está indo contra uma de suas bases mais fiéis no Congresso para atender o lobby do embaixador dos EUA em Brasília, Todd Chapman. Mais proeminente diplomata americano no País desde Lincoln Gordon, Todd Chapman procurou parlamentares para apoiar na isenção das alíquotas de etanol e assim ajudar Donald Trump a ganhar votos em Iowa, um dos estados indefinidos na eleição de novembro. Ao Congresso americano, Chapman disse que apenas defendeu os interesses econômicos americanos.

Bolsonaro não está sozinho nesta demonstração pública de bajulação a Trump. No fim de semana, todos os países da América Latina elegeram um acólito de Trump para a presidência do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), encerrando uma tradição de que o posto nunca era ocupado por americanos. Mesmo presidentes ideologicamente mais distantes de Trump, como o mexicano López Obrador, agora está construindo cadeias na fronteira norte para impedir que imigrantes da América Central entrem nos EUA, exatamente como Trump queria.

O argumento de tanto incenso para o presidente americano é simplista. Desagradar o presidente americano pode colocar o país como alvo de sanções e assédios pessoais (basta ver os ataques de Trump contra a primeira ministra da Dinamarca por se recusar a vender a Groenlândia). Ao mesmo tempo, esses países apostam que se o democrata Joe Biden vencer, os negócios serão mais importantes que as idiossincrasias do presidente. Por este raciocínio, Biden não teria interesse de criar problemas com os latino-americanos. Em política, o nome disso é autoengano.

Se for eleito, Biden será o presidente americano com maior conhecimento sobre América Latina. No governo Obama, ele ficou encarregado das relações no continente, visitou a maioria dos países e criou relações pessoais com os presidentes. Esteve envolvido diretamente na normalização das relações com Cuba e no acordo de bastidores para deixar o Brasil como fiador contra o radicalismo no governo chavista na Venezuela.

Biden é um político tradicional que comanda uma aliança complexa cujo único ponto de consenso é o ódio a Trump. É uma coalizão tão ampla que o caso brasileiro comparável seria o da aliança que Tancredo Neves formou para enterrar o regime militar.

Uma das suas maiores fragilidades de Biden é atrair o voto dos jovens de esquerda ambientalista que se encantaram com Bernie Sanders e seu Green New Deal. Uma das soluções mais baratas para obter a simpatia desses eleitores chama-se Jair Bolsonaro.

O presidente brasileiro é o sinônimo internacional de destruição da Amazônia (assista o vídeo). Impor sanções comerciais ao Brasil pelo incentivo governamental ao desmatamento, defender o boicotes aos produtos brasileiros e ameaçar levar Bolsonaro às cortes internacionais por genocídio são propostas que não custam dez centavos e podem fazer milhares se levantar do sofá em 3 de novembro. De quebra, Biden pode ganhar a simpatia de fazendeiros americanos que competem com a soja, a carne e laranja brasileiros.

Ao tentar intervir de forma amadora na eleição americana, Bolsonaro se colocou como um alvo móvel para os democratas. Se Trump vencer, Bolsonaro ainda terá de pagar outro pedágio, impedir a chinesa Huawei de participar da licitação da tecnologia 5G. Se Biden vencer, a pressão ambiental sobre o Brasil será multiplicada e a possibilidade de retaliações vira parte do jogo.




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